Produzindo desertos

Sem terra não há alimento e sem alimento nem tecnocrata consegue viver. O produto agrícola acompanha a terra. Em terra pobre se é pobre e em terra fértil, rico. Por isso, durante milênios a terra foi considerada o patrimônio mais valioso de cada povo da qual deuses cuidavam como Ceres em Roma, Demeter na Grécia, Osíris no Egito, Quetzalcoatle nos impérios toltecas e astecas ou Freia para as tribos germânicas.

Da fertilidade da terra depende vigor ou indolência da população. Muitas civilizações desapareceram por descuidar de suas terras. Em meio ao bem estar e luxo se esqueceram que sua força veio da terra.

Pois é, dirão por isso que corrigimos e fertilizamos a terra. Mas entra justo aqui o problema. Já o velho Liebig descobriu a “Lei do Mínimo” dizendo que deveriam haver proporções exatas entre os nutrientes e todos os fatores nutritivos tinham que estar em equilíbrio. Na teoria, todos o sabem, mas na prática, sempre o esquecem. Dos mais de 45 elementos nutritivos que a planta necessita colocavam somente de 3 a 6, acreditando que tudo estaria ótimo. E os outros nutrientes? Finalmente admitiam que, para crescer, florescer e maturar necessitava-se de 16 nutrientes minerais, isto é, para criar a forma. Mas e o conteúdo? O valor biológico? Onde ficaram todas as proteínas, açúcares, óleos, graxas, vitaminas, flavonas, hormônios, aromas, etc.?

Nas análises bromatológicas se constatou que as proteínas aumentaram pela adubação nitrogenada. Sabem por quê? Porque chamaram as proteínas simplesmente de aminoácidos e destes nem sabiam se eram os comuns ou essenciais. É mais ou menos como chamar um monte de tijolos de palacete somente porque se poderia construir um palacete com estes tijolos se o material estiver à disposição para a construção.

A terra não é mais tratada, é forçada a produzir. Antes o agricultor a tratava com amor e dedicação sabendo que disso dependia a sobrevivência dele e de seus descendentes. Mas agora a terra virou somente um “Recurso Renovável” na produção de lucros. Antes da era industrial, a terra era a única fonte de lucro e mesmo no Brasil o início da industrialização se deu com recursos da cafeicultura. Depois os lucros entre a agricultura e a indústria empataram até que depois da Segunda Guerra toda a tecnologia bélica foi liberada para a indústria e os lucros subiram imensamente. A ciência criou mais tecnologia e aí a agricultura não podia mais acompanhar os rendimentos.

E de repente a indústria não produziu mais para o homem e sim para gerar lucros e o homem tornou-se simples recurso humano na produção de lucros e a agricultura, que somente fornecia recursos alimentícios para os recursos humanos, despencou na escala de valores. Ninguém mais se preocupava com ela, empecilho vergonhoso no aumento do Produto Interno Bruto.

Mas na procura de mercados, descobriram na agricultura um ótimo nicho para investir: insumos, máquinas, adubos e agrotóxicos. A Revolução Verde abriu este mercado em potencial.

Derrubaram-se as matas e os cerrados, entraram com máquinas pesadas, calcário, adubos, agrotóxicos…E como a agricultura não aguentou todos estes insumos, que tornaram a produção cara e como estragaram as terras, então os governos passaram a subsidiar a agricultura, uma vez que animou a indústria. Instalou-se a erosão, as enchentes, as secas, as pragas tiveram um aumento explosivo, invasoras se tornaram persistentes e os agricultores perderam suas terras inchando as favelas nas cidades. Aumentaram os latifúndios, as agroindústrias e as terras estragadas.

As variedades hibridadas já não acompanham mas a decadência. Passou-se então à clonagem das sementes criando milhões e bilhões de plantas idênticas. Facilita a industrialização.

Descobriram que cada célula vegetal possui o código genético completo, podendo dar uma planta inteira. Mas alguém perguntou por que a natureza deu para as células reprodutivas somente metade de seu código? Isso é assim para que haja uma diversificação dos indivíduos e com isso também haja uma adaptabilidade às condições novas. Sumiram milhares de variedades por causa da hibridação, numa erosão genética sem par. Agora não haverá mais adaptação natural. Será tudo artificial com transplante de gens. E se os cientistas não conseguirem acompanhar as variações das terras, dos solos?

O saque das terras continua. A agricultura atual é uma das maiores destruidoras do meio ambiente. Terras em desertificação, terras inférteis, terras abandonadas. E um pernambucano me diz: “o que não conseguimos acabar em 300 anos agora os tratores conseguiram em 3: acabar com a produtividade da terra.

A receita de produzir desertos é muito simples: compactar e adensar as terras para que a maior parte das chuvas escorra em lugar de se infiltrar. E depois desmatar tudo. Isso beneficia a movimentação das máquinas e permite a formação de um vento seco. Vento seco leva a pouca umidade que se infiltrou na terra numa única noite. E aí o deserto é feito. Existem desertos com 2400 mm de chuva por ano. A receita é infalível.

Graças à agricultura atual estamos criando desertos. Nossos solos escorrem para os rios, assoreiam represas, milhões de quilômetros quadrados de terras estão em processo de desertificação. Desertos avançando, rios secando, poços sumindo, fontes e riachos inutilizados por agrotóxicos, pragas aumentando mas as super safras compensam, e enchem o bolso. Até quando?

Esse é o resultado da famosa Revolução Verde, inventada por Bourlaug, lançada pelo presidente Kennedy: “Alimentos para a Paz”. O que vemos, na verdade, é que os alimentos estão cada vez mais longe das massas famintas e milhões ainda morrem de fome. Mas se diz que famintos não fazem revolução nem guerra e aí a paz está garantida. Mas para quem servem os alimentos produzidos, já que não são acessíveis às populações famintas?

Eis aí uma pergunta delicada.

Ana Maria Primavesi (Facebook)

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