Kuhikugu, civilização amazônica

A imagem é uma representação realistica de Kuhikugu, um grande complexo rural-urbano constituído de “cidades-jardins”, construído pelos ancestrais dos Kuikuros, povos indígenas que habitam a região do Xingu, em Mato Grosso (centro do Brasil), desde o ano 500 d.C.

Com uma área residencial de cerca de 400 km², Kuhikugu era o “centro” de uma rede com 19 assentamentos, iniciados por volta de mil anos atrás. Em 1400 d.C., alcançaram proporções imponentes, os maiores em terras baixas da América do Sul, nos tempos pré-colombianos. Calcula-se que essas cidades perfeitamente adaptadas à floresta, idealizadas desde os tempos de Colombo como cidades “perdidas”, “eldorado”, repletas de riquezas, abrigavam dezenas de milhares de pessoas. Foram construídas com uma variedade de estruturas, que as tornava eficientemente habitáveis, autossustentáveis, comunicáveis e protegidas. Foi o arqueólogo inglês Heckenberger que as localizou.

Heckenberger descobriu que os assentamentos de Kuhikugu eram ligados por um sistema de estradas amplas e retas. O mapeamento das obras de terraplenagem revelam sua articulação em um plano regional notavelmente elaborado, que incluem (i) valas escavadas dentro e ao redor de antigos assentamentos (até 2,5 km de comprimento e 5 m de profundidade) (que serviam para proteção); (ii) montes lineares ou “meios-fios” posicionados nas margens das estradas principais e praças circulares (com média de cerca de 0,5 a 1,0 m de altura); e (iii) uma variedade de áreas ligadas aos cursos das águas, como pontes, obstruções artificiais de rios e lagoas (inclusive usadas para criação de peixes), calçadas elevadas, canais e outras estruturas. Também foram encontradas evidências de florestas plantadas, campos cultivados e manejo de pomares.

Com o início da Colonização Européia (a partir de 1500), as grandes comunidades xinguanas sofreram redução populacional e violação étnico-cultural catastróficas, devido às primeiras epidemias causadas pelas doenças infecto-contagiosas provenientes do Velho Mundo, como gripe e sarampo, e o extermínio sistemático dos povos indígenas. As grandes “obras públicas” da “região metropolitana” de Kuhikugu foram abandonadas ou destruídas, virando ruínas cobertas pela vegetação densa. Restou o imaginário e as lendas sobre essa civilização antiga, que incentivou aventureiros e pesquisadores em busca de pistas de seu paradeiro.

Percy Fawcett, arqueólogo e explorador britânico (que alguns apelidaram de o “verdadeiro Indiana Jones”), com base em relatos de exploradores antigos documentados no Manuscrito 512, acreditava que havia uma cidade na floresta do Mato Grosso. A chamou de “cidade perdida de Z”, com grandes construções e riquezas ainda escondidas. Realizou excursões exploratórias na Amazônia, entre 1906 e 1925. Misteriosamente, ele e companheiros desapareceram em 1925, na busca da cidade. Em sua última mensagem, telegrafada à sua esposa, dizia que estava prestes a entrar em um território inexplorado, acompanhado somente de seu filho e um amigo dele. Partiram para atravessar a região do Alto Xingú, e nunca mais voltaram. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

Durante as décadas seguintes, foram organizadas várias expedições de resgate, sem êxito. Tudo o que conseguiram foi coletar histórias dos nativos. Alguns disseram que eles foram mortos por indígenas hostis ou animais selvagens, que os devoraram. Outros, que Fawcett teria perdido a memória e estaria vivendo como chefe de uma tribo de canibais. E, ainda, que eles realmente encontraram a cidade perdida no sul do estado do Pará, mas foram impedidos de retornar para manter o segredo da existência de tal local.

As histórias em torno de Fawcett inspiraram livros e filmes. O primeiro livro foi escrito por seu amigo e também escritor, Arthur Conan Doyle, “Lost World” (Mundo Perdido), que gira em torno de uma expedição a um platô na bacia amazônica da América do Sul, onde animais pré-históricos (dinossauros e outras criaturas gigantes extintas) ainda sobrevivem. Também foi publicado Z: A Cidade Perdida, de David Grann, servindo de base para o filme Z: A Cidade Perdida. Enfim, suas aventuras serviram de inspiração para a criação das aventuras do arqueólogo mais famoso dos cinemas: Indiana Jones.

Imaginemos como Fawcett reageria ao saber que a cidade perdida que tanto buscou em sua vida poderia ter existido na forma de “cidades-jardins”, com um planejamento feito com base em conhecimentos de engenharia, urbanística, geometria, ecologia, logística, agronomia, sistemas agrários, ativamente adaptadas e construídas de acordo com as peculiaridades da floresta e necessidades dos seus habitantes.

Referências:

Angelo, C. Estudo vê urbanismo antigo no Xingu. Centro de Arqueologia dos Biomas da Amazônia.
http://www.caba.usp.br/arqueologia_materias-artigos….

Franchetto, Bruna. Kuikuro. ISA: Instituto Socioambiental.
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kuikuro.

Gonçales, Luis Alexandre Franco. A Expedição Fawcett em busca da cidade perdida de Z, 2016.

Heckenberger, Michael J. As cidades perdidas da Amazônia. Scientific American, 301, n⁰ 4, 64-71, 2009.
http://www.jstor.org/stable/26001557.

Heckenberger, Michael J. e outros. Amazônia 1492: Floresta intocada ou parque cultural? https://science.sciencemag.org/content/301/5640/1710.full.

Fonte: Horta Urbana, Facebook

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