Como matam em meu país


A vida de Moïse Kabagambe terminou como sua mãe temia quando a família fugiu da República Democrática do Congo, arrasada pela guerra entre duas etnias, os hema e os lendu. “Mataram meu filho aqui como matam em meu país, mataram meu filho a socos e pontapés, como um bicho”, disse Ivone Lay, a mãe de Moïse, espancado até a morte no Posto 8 da Barra da Tijuca, na valorizada orla carioca.

“A gente vem para cá achando que todo mundo vai viver junto. Que é todo mundo igual, mas não”, disse Ivone no mesmo depoimento ao repórter Rafael Nascimento Souza, do jornal Extra, explicando que desde que os filhos eram pequenininhos sua família, da etnia hema, era vítima da violência.

O que ela teve que aprender por aqui, como acontece com haitianosangolanos e tantos migrantes e refugiados de países negros, é que em vez do “Brasil, mãe acolhedora”, como ironizou o irmão de Moïse, o lugar que escolheram para viver é um país violentamente racista. “Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano”, concluiu amargamente a mulher que deseja ir embora do Brasil depois que conseguir justiça para o filho de 24 anos, assassinado por cobrar 200 reais devidos por dois dias de trabalho no quiosque Tropicália, onde o espancamento começou. 

Ivone só soube da morte do filho às 11 horas da manhã de terça-feira (25), cerca de doze horas depois do assassinato brutal. A polícia não moveu uma palha até o sábado (29), quando a família, como tantos parentes de jovens negros assassinados, sabendo-se ignorada pelas autoridades, foi protestar na rua, chamando a atenção da imprensa para o crime bárbaro. Só então a polícia se mexeu para ouvir o dono do quiosque, que depôs no dia 1o de fevereiro.

Acontece que Carlos Fábio da Silva, o proprietário do Tropicália, sabia o que havia acontecido enquanto o corpo de Moïse ainda estava estirado no chão, sem identificação, segundo a polícia. Em seu depoimento na delegacia, disse ter recebido, na noite do dia 24, um telefonema de Fábio (conhecido como Belo), que aparece nas imagens golpeando 25 vezes com um porrete o jovem refugiado, para perguntar se as câmeras estavam em operação. Carlos teria desconfiado e mentido, dizendo que elas estavam desligadas. Foi através dessas imagens, que teriam sido entregues então para a polícia (o MPF questiona a data da coleta de provas), é que os três criminosos foram presos, acusados de homicídio duplamente qualificados: o próprio Belo, vendedor de caipirinhas na praia, o cozinheiro Aleson, que trabalha no quiosque Biruta, bem ao lado; e Brendon, o Totta, esse do quiosque do Juninho, dos mesmos donos do Biruta.  

Não se sabe ainda o porquê de tanta violência. O que se sabe é que antes da divulgação do crime a PM tentou intimidar a família de Moïse quatro vezes. Também se sabe que, na noite do dia 24,  o cozinheiro Aleson estava atuando como segurança do dono do Biruta, assim como o lutador de jiu-jitsu Totta. Por coincidência, o patrão de dois dos três agressores, Alauir Mattos de Faria, é um policial militar, lotado no 41o batalhão, o de Irajá, conhecido como “batalhão da morte” e denunciado por Marielle Franco pouco antes de ela ser assassinada. 

Depois de conhecer o racismo brasileiro, a família Moïse está aprendendo agora a duras penas quem manda no Rio de Janeiro. Sempre com apoio de altas autoridades da República, a começar pelo maior fã de milicianos da Barra da Tijuca: o presidente Jair Bolsonaro, que sequer se incomodou em comentar o crime mais recente da vizinhança. 

Que os protestos envergonhados e indignados de todos nós não deixem que mais esse assassinato fique sem resposta. Justiça para Moïse e para todos os jovens negros mortos pela violência nesse país, cada vez menos acolhedor.


Marina Amaral 
Diretora Executiva e Editora da Agência Pública
Por e-mail

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