Toda a economia global é cúmplice da destruição da Amazônia

Centenas de empresas internacionais prometeram ajudar a limitar o desmatamento. Nenhuma delas está conseguindo.

Pense em qualquer restaurante de fast food, qualquer fabricante de produtos de cuidados pessoais ou de coisas para casa – é provável que eles tenham contribuído para o desmatamento da Amazônia. Agora pense num grande banco – qualquer um. Também é muito provável que ele tenha ajudado a financiar a destruição da Floresta Amazônica.

Empresas de móveis como Ikea e La-Z-Boy, e gigantes dos equipamentos esportivos como Nike, Adidas e New Balance são clientes de fábricas chinesas que compram couro de pecuaristas brasileiros. O óleo de palma, produzido no Brasil e em outros lugares do mundo, é usado em massa de pizza, sorvetes, batons e xampus. Produtos à base de soja, madeira e papel que vêm diretamente da Amazônia também são onipresentes.

Não é difícil apontar essa nossa sede insaciável por gado, soja, madeira, óleo de palma e outras commodities como o principal motivo para o desmatamento da Amazônia e para os incêndios registrados este ano que chamaram a atenção do planeta.

O que é difícil é saber o que fazer. Graças à escala da economia global e à complexidade das cadeias de suprimento e dos sistemas financeiros que a sustentam, praticamente toda empresa e instituição financeira do planeta é cúmplice da destruição da Amazônia e de outros ecossistemas florestais ao redor do mundo.

Apesar de centenas de empresas terem feito compromissos públicos de combate ao desmatamento, nenhuma delas faz o suficiente para de fato limitar – sem falar em acabar – essa prática.

“É muito desafiador passar um dia sem ter contato com o desflorestamento”, diz Stephen Donofrio, assessor sênior da Forest Trends, uma ONG de Washington que acompanha o desmatamento por parte das empresas.

O mundo perde em florestas o equivalente a 15 campos de futebol por minuto, mas em pouco lugares o problema é tão agudo quanto na Amazônia, uma floresta tropical que há décadas recebe atenção global e é alvo de esforços de proteção de autoridades brasileiras e grupos conservacionistas.

Vista aérea de região desmatada na Amazônia, nas proximidades de Porto Velho, em
UESLEI MARCELINO / REUTERS
Vista aérea de região desmatada na Amazônia, nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia.

O presidente Jair Bolsonaro mudou o norte da política ambiental no País. Ele enfraqueceu as agências ambientais do País e está determinado a acabar com as proteções legais sobre a Amazônia e as terras demarcadas para populações indígenas. Mas ele não age sozinho: uma vasta rede de corporações americana e europeias, apoiadas por grandes instituições financeiras e companhias brasileiras de menor porte, agricultores e pecuaristas, também têm responsabilidade, como destaca a ONG Amazon Watch num relatório de abril.

A organização mencionou as maiores traders mundiais de soja – Archer-Daniels-Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, conhecidas como as ABCDs – além de outras empresas menores e menos conhecidas dos setores de madeira, carne e óleo de palma.

Em 2014, a Cargill foi uma das centenas de empresas globais que prometeram limitar seu impacto nas florestas, incluindo a Amazônia, se recusando a comprar commodities de fornecedores responsáveis por desmatamento. Este ano, a companhia promoveu uma iniciativa para ter “cadeias de suprimento livres de desmatamento” até 2030, afirmando que os fornecedores não-alinhados com essa diretriz serão abandonados.

Mas, em junho, a Cargill disse aos fazendeiros brasileiros que era contra uma moratória na produção de soja no cerrado – uma prioridade para grupos de defesa do meio ambiente que já tinham ajudado a estabelecer uma moratória semelhante na Amazônia, na década passada. A justificativa da Cargill foi que outras empresas e fornecedores continuariam produzindo soja e destruindo florestas; de fato, as outras gigantes da soja também resistem à ideia da moratória.

Em vez disso, a empresa se comprometeu a investir 30 milhões de dólares para financiar ideias que a ajudem a alcançar seu objetivo. Mas os ambientalistas criticaram a companhia por sua incapacidade de decidir entre os fornecedores envolvidos no desmatamento e seus objetivos de sustentabilidade – que a Cargill admite que não deve alcançar.

Soja e gado são responsáveis por quase 80% do desmatamento da Amazônia.O relatório de abril também apontou a responsabilidade da JBS, um dos três grades frigoríficos brasileiros responsáveis por cerca de 70% das exportações de carne brasileira para a Europa e os Estados Unidos.

A JBS recebeu multas de milhões de dólares em 2017 por comprar gado criado em áreas protegidas. Neste ano, ela foi uma das empresas brasileiras associadas a práticas similares de desmatamento, de acordo com uma investigação conjunta de The Guardian, Repórter Brasil e Bureau of Investigative Journalism.

As instituições que sustentam financeiramente essas empresas também são responsáveis.

O BlackRock, maior gestor de recursos do mundo, é um “financiador-chave dos gigantes do agronegócio mais envolvidos no desmatamento da Amazônia brasileira”, afirma o relatório, observando que a companhia detém mais de US$ 2,5 bilhões em ações das maiores empresas de agronegócio do País.

Laurence Fink, CEO do BlackRock, ganhou a reputação de “consciência de Wall Street” por posicionar publicamente sua empresa como defensora da sustentabilidade. Mas, ao mesmo tempo, ela é um dos “denominadores comuns do financiamento de alguns dos negócios mais destrutivos do planeta”, diz Christian Porier, diretor de programas da Amazon Watch e autor principal do estudo divulgado em abril. (A Amazon Watch lançou este ano uma campanha cobrando as responsabilidades do BlackRock.)

O BlackRock, segundo o relatório, financia Cargill e Bunge, ambas empresas multadas pelo governo brasileiro por comprar grãos ligados ao desmatamento ilegal. As duas companhias questionaram as multas e dizem cumprir as leis.

Procuradas, BlackRock e Cargill não responderam imediatamente aos pedidos de comentário do HuffPost.

Bancos como JPMorgan Chase e Barclay’s também financiam a JBS, segundo o relatório. Outras grandes instituições financeiras globais, como HSBC, Morgan Stanley, Bank of America e Crédit Suisse, trabalharam com Marfrig e Minerva, duas outras grandes produtoras de carne brasileiras, nos últimos cinco anos, afirma o relatório.

Nos últimos anos, muitos dos maiores bancos do mundo, especialmente os que têm sede na Europa e nos Estados Unidos, anunciaram planos de reduzir o financiamento oferecido a empresas ligadas ao desmatamento. Em 2017, por exemplo, o HSBC implementou uma política antidesmatamento em resposta a um relatório do Greenpeace que associava o banco a investimentos de mais de US$ 16 bilhões em companhas acusadas de desmatar ilegalmente. O Barclay’s e o Crédit Suisse fazem parte de um grupo de bancos em se comprometeram em 2014 com o desflorestamento líquido zero.

Enquanto isso, a Marfrig fala em respeitar práticas de conservação da Amazônia, mas a empresa é associada a pecuaristas que receberam multas por desmatar ilegalmente áreas da Amazônia.

Os esforços corporativos para limitar o impacto destrutivo das grandes empresas tem um problema: apesar de afirmar que respeitam a sustentabilidade, muitas vezes elas só têm como se certificar das práticas de seus parceiros imediatos. Não há responsabilidade sobre o que acontece nos outros elos da cadeia de produção.

Muitas empresas “conseguem demonstrar [o cumprimento das regras] quando se trata de fornecedores primários, mas a investigação das cadeias de suprimento para por aí”, diz Christian Porier, da Amazon Watch.

Nem sempre isso se deve a práticas desonestas. As empresas simplesmente não têm as informações e os dados necessários para proteger ecossistemas como a Amazônia, diz Michael Coe, cientista e diretor do programa amazônico do Woods Hole Research Center, em Massachusetts, nos EUA.

“Temos que considerar todos os atores e nos perguntar que mecanismos existem para reduzir as demandas sobre a floresta”, afirma ele.

Ecossistemas intactos são cada vez mais importantes. A ONU alertou em um relatório recente que o uso insustentável de terras ajuda a levar as concentrações de dióxido de carbono aos níveis mais altos da História humana. Antes mesmo desse alerta, a crise ambiental mundial tem jogado cada vez mais luz sobre a importância da sustentabilidade para consumidores e também para as empresas.

Árvores destruídas pelo fogo na Floresta Nacional Jacunda, perto de Porto Velho, em Rondônia,...
ASSOCIATED PRESS
Árvores destruídas pelo fogo na Floresta Nacional Jacunda, perto de Porto Velho, em Rondônia, parte da Amazônia.

 

Em 2014, centenas de empresas se comprometeram a eliminar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos e portfólios financeiros até 2020. Porém, menos de seis meses antes do prazo limite, nenhuma delas está perto de atingir a meta, de acordo com o Global Canopy, ONG britânica que rastreia mais de 500 empresas e instituições financeiras que colocam florestas em risco por meio da dependência ou financiamento de cadeias de suprimentos ricas em commodities.

O Carbon Disclosure Project, outra ONG britânica, tentou convencer as empresas a serem mais transparentes em relação às práticas que destroem o meio ambiente, num esforço de melhorar as práticas delas.

Mas mais de 70% das 1.500 empresas que foram convidadas a divulgar informações sobre produção de madeira, óleo de palma, gado e soja em 2018 não compartilharam dados, e mais de 350 ― incluindo companhias como Dominos Pizza e Mondelez, responsável por marcas como Oreo, Nabisco e Kraft Foods ― não publicaram suas informações nos últimos três anos.

Quase 25% das empresas que compartilharam dados disseram que não tomaram nenhuma medida para limitar o desmatamento, ou que apenas fizeram algo somente em um dos quatro grupos de commodities. A pesquisa também mostrou que um terço das empresas ainda não havia começado a trabalhar com seus fornecedores para limitar o desmatamento.

Mais da metade das 865 empresas que têm exposição aos riscos do desflorestamento, segundo a ONG Forest Trends, se comprometeram a depender de commodities sustentáveis, informou um estudo divulgado pelo grupo em junho. Mas menos de 10% delas se comprometeram com um desmatamento líquido zero; menos de um terço deles relatou progressos substanciais.

“Apesar dos compromissos assumidos”, diz a Global Canopy em seu relatório anual “Forest 500”, “as evidências mostram que as taxas de desmatamento ligadas a commodities não diminuíram”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês. 

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