Ciência e Tecnologia, onde está a mentira?

José Antônio Lutzenberger
Seminário de Abertura – Março l995
Universidade do Mato Grosso

Vivemos hoje uma civilização universal, o Industrialismo Global, que se tornou uma religião fanática. Ela se sobrepõe a todas as religiões e ideologias tradicionais. Não se diz religião. Sua doutrina atual não foi anunciada por nenhum profeta. Ela não tem livro santo nem catecismo explícito, mas a doutrina é tão forte que é confundida com senso comum e é aceita e seguida quase sem exceções pelos poderosos em todo mundo, sejam quais forem os regimes políticos. Ela é o alicerce do poder dos governos.

Mesmo antes do falecimento do chamado Comunismo, já era assim. Aliás, as diferenças entre Capitalismo e Comunismo são da mesma natureza que as diferenças entre Protestantismo e Catolicismo. Assim como estes têm a mesma doutrina básica, ambos são cristãos, Capitalismo e Comunismo querem a mesma coisa – desenvolvimento industrial sem limite. A diferença está na forma de administração. Catolicismo e Comunismo têm Papa infalível, doutrina rígida e explícita e facilmente classificam os que discordam, de “hereje” ou “inimigo de classe” e os perseguem. O Capitalismo é mais sutil, procura absorver, envolver, doutrinar subliminarmente. Onde não consegue integrar e dominar, aliena, desmoraliza e marginaliza.

O que está acontecendo não é a previsão de George Orwell em seu livro “1984”, que previa um estado todo poderoso, totalmente repressivo, que, com tecnologia sempre mais sofisticada e envolvente, controlaria até a vida privada do cidadão. Está se concretizando a previsão de Aldous Huxley em seu livro “Brave New World”, ou “Admirável Mundo Novo”, versão em português. Este previa uma situação contrária, igualmente perniciosa, ou pior, porque mais inescapável – um poder difuso, quase invisível, supostamente democrático, que se impõe pela desinformação, pelo apelo a atitudes egoístas, hedonistas e mesmo orgiásticas.

Uma vez, em uma palestra para estudantes universitários, procurei mostrar os estragos sociais e ecológicos do consumismo. Um jovem me interpelou: “mas onde fica a felicidade das pessoas, se não houver consumo?” Lindo exemplo de assimilação inconsciente da doutrina imperante.

O dogma básico desta religão diz que o “crescimento econômico” é a medida de todo sucesso, é a medida de progresso, de prosperidade. Este crescimento não pode parar nunca.

Mas, nesta fé, crescimento econômico se mede em PNB, Produto Nacional Bruto, também chamado de Produto Social Bruto, PSB, ou Interno Bruto, PIB. Este índice econômico é a soma de todos os faturamentos numa economia nacional. Inicialmente, como PNB per capita, servia apenas para avaliar a média das rendas, o que, naturalmente, nada nos diz sobre a justiça social num país. Que significa a média entre a renda do usineiro nordestino, que anualmente chupa milhões em subsídios, e a miserável renda de seu bóia fria? O PNB, no entanto, passou a ser índice para medir e comparar progresso. Mas ele só mede atividade, não distingue entre atividade desejável e indesejável.

Digamos que a poluição e a degradação ambiental cheguem a ponto de causar violenta deterioração na saúde pública. Construíremos mais hospitais e ambulatórios, haverá mais gastos com médicos, enfermeiras, medicamentos, ambulâncias, funerárias, o índice crescerá da mesma maneira que ele cresce com atividade realmente produtiva. Os economistas, ao invés de medir mais sofrimento, estarão medindo mais prosperidade. O mesmo acontece com desastres, guerras, terremotos, devastação florestal. Até a corrrupção, o crime e a droga fazem crescer o PNB.

O crescimento assim medido, não pode parar. Seus custos geram, inclusive, mais crescimento. Em Washington, em reunião preparatória para a cúpula do meio ambiente no Rio de Janeiro, a ECO-92, ouví o Presidente George Bush, depois, na própria cúpula, a Primeira Ministra da Noruega, Gro Bruntland, mentora da Conferência, em palavras diferentes, dizerem a mesma coisa: “precisamos de mais crescimento para termos os recursos para arrumar os estragos que já temos.”

Instrumento supremo para atingirmos este alvo é a Tecnologia, que precisa desenvolver-se sem freios, pois ela é vista como uma espécie de cornucópia, que nos dará sempre novos milagres, para resolver todos nossos problemas, sem fim. Sua fonte e justificativa é a Ciência.

Na prática política e administrativa já temos um conceito unificado – Ciência e Tecnologia. Quase todos os governos do mundo têm Ministérios ou Secretarias de Ciência e Tecnologia. Não conheço nenhum que os separe. A real e sagrada função da ciência, nesta visão, é a produção de novas tecnologias, de tecnologias vendáveis, de preferência patenteáveis, que levem a faturamento, sempre mais faturamento. Neste enfoque, a Ciência é apenas servo fiel da economia. Assim, consideram-se cientistas hoje, quase todos aqueles “pesquisadores” que desenvolvem novas tecnologias, mesmo que se trate apenas de encontrar uma nova fórmula para sabão ou perfume. Por outro lado, aqueles poucos que ainda fazem ciência básica, por exemplo, nos grandes aceleradores de partículas, como em CERN, para descobrir as leis mais básicas do comportamento da matéria, quando precisam pedir verbas aos governos, justificam seu trabalho com o possível aparecimento de novas tecnologias ainda não discerníveis, mas que, certamente, serão de grande valor. A simples curiosidade diante dos mistérios do Universo, não vale. A biologia molecular já está quase toda em mãos de grandes empresas transnacionais, que com ela procuram desenvolver produtos ou mesmo seres vivos patenteados. Aliás, as aves em nossos atuais campos de concentração de galinhas, já não são mais raças, são marcas registradas.

Mas o que é a Ciência, o que é Tecnologia?

É claro que, pelo conceito corrente, é isto que aí está. O “establisment” é técnico-científico-industrial, é a igreja da nova religião.

Mas, em termos filosóficos, o que é Ciência, o que é Tecnologia?

A Ciência – com C maiúsculo – é um diálogo limpo com o Universo, ou seja, com a Natureza. Ela se apoia no postulado de que o Universo não é caótico. Não existem milagres, mistérios insondáveis sim. As leis do comportamento da Natureza são universais, imutáveis e intransgredíveis. Quer dizer que as leis da física são as mesmas na galáxia longínqua que está a bilhões de anos luz de distância, eram as mesmas quando partiu de lá a luz que hoje observamos e que levou bilhões de anos para aqui chegar, e serão as mesmas enquanto durar o Universo. E, se alguém nos contar que conhece um lugar onde os rios correm montanha acima e a chuva sobe do solo ao céu, não precisamos perder tempo para ir lá verificar.

Muitos leigos, especialmente economistas e políticos, analfabetos em ciências naturais, parecem pensar que a Ciência acabará encontrando maneiras de superar as leis da Natureza. Que passaria por cima da lei da gravidade, por exemplo. Argumentam, assim, que sempre haverá tecnologia para reparar o que estragamos, que encontraremos sempre novos recursos, quando se acabarem os atuais. Mas, se hoje um Boeing 747 atravessa oceanos com 500 pessoas a bordo, a novecentos quilômetros por hora e em dez mil metros de altura, é porque os engenheiros que projetam e desenvolvem estas naves se atêm estritamente às leis da física, eles não têm como não submeter-se à lei da gravidade, às leis da aerodinâmica e outras. Qualquer desrespeito a estas leis e o avião não voa ou cai.

A Ciência quer descobrir as leis universais, imutáveis e intransgredíveis do comportamento da Natureza. Como faz para descobrí-las? Ela se empenha num diálogo absolutamente honesto com tudo o que podemos observar. Observando e comparando fatos ou fenômenos, por intuição, imaginação ou associação de idéias, concebe modelos, regras ou conjuntos de regras. Chega-se, assim, a uma hipótese. A hipótese sugere experimentos que podem refutá-la ou não. Se for refutada, não deixou de ser um bom instrumento de trabalho porque obriga a ajustes no modelo ou à procura de outro modelo. Se não for refutada, não quer dizer que não possam surgir novas observações que a refutem. Portanto, o cientista jamais poderá afirmar que encontrou a verdade absoluta, só aproximações sempre mais precisas. O que de nada adianta, são hipóteses ou afirmações que não podem ser refutadas ou conferidas.

Conheço místicos que me contam o que viram em galáxias remotas em “viagens astrais” ou o que viram no futuro. Não posso provar o contrário, tampouco eles podem me convencer. O cientista, como cientista, só pode apresentar afirmações comprováveis ou refutáveis. Precisa dizer, também, como fazer estas verificações.

A atitude básica da Ciência é o oposto da postura dos místicos. Estes, costumam afirmar que têm acesso à verdade absoluta, não admitem dúvidas. Na escola primária, nosso professor de catecismo procurava nos incutir que a maior virtude estava na fé cega, acreditar sem pedir provas. Eu tinha dez ou doze anos. Esta posição me chocava, fez nascer em mim o interesse pela Ciência e Filosofia.

Se os místicos estivessem todos de acordo, nós, os demais pobres mortais, poderíamos dizer: “Está bem, estes caras têm antenas que nós não temos, deve ser verdade.” Mas não é assim, conheço tremendas discordâncias entre eles, todas apresentadas como certeza absoluta.

A Ciência não pretende apresentar verdade absoluta, ela só procura sempre mais aproximação. Sugiro aos jovens que leiam a fascinante história da Ciência, a maior aventura do espírito humano, especialmente a história da Astronomia e da Física. Em todas as disciplinas, tambem na Biologia ou na Geologia, verão como a evolução do conhecimento passa por sucessão de hipóteses e paradigmas, cada vez mais precisos e mais envolventes. Também nesse ponto, o leigo, muitas vezes, pensa que a Ciência progride pela derrubada de conhecimento anterior. Não é bem assim. O que costuma acontecer é a ampliação de horizonte e o esmero no detalhe.

Einstein não derrubou Newton, foi além, incluiu Newton numa visão mais ampla. Conseguiu assim, explicar observações que não coroboravam Newton, p.ex., a órbita de Mercúrio. Copérnico não derrubou Ptolomeu que, com as observações imprecisas da época e tomando a terra como referência, também previa eclipses, mas tinha que pressupor ciclos e epiciclos com matemática bastante complicada. A perspectiva heliocêntrica de Copérnico trouxe uma grande simplificação.

Na Genética, T. H. Morgan não derrubou Mendel, colocou-a em pespectiva mais ampla. Crick e Watson não derrubaram Morgan, aprofundaram, assim como na Geologia, a deriva dos continentes, com suas placas tectônicas, simplificou e ampliou enormemente a compreensão da evolução geológica de nossas paisagens, sem invalidar conhecimentos anteriores.

Fundamental, portanto, para o cientista é a honestidade absoluta e sem perdão. Cientista que faz trapaça, engana, mente, por definição, não é cientista. A pessoa que faz Ciência tem que ser humilde, modesta, autocrítica. Virtude básica é o ceticismo. Terá que estar disposta em qualquer momento a abandonar as suas mais queridas idéias ou explicações, cada vez que a Natureza as contradisser na observação ou no experimento. Os verdadeiros grandes cientistas eram assim. É comum hoje ouvir-se que Ciência nada tem a ver com valores ou emoções, ou com ética. Mas, esta honestidade é uma decisão ética.

A Ciência é um valor em si. Quanto mais nos aprofundamos no diálogo limpo com o Universo, mais nos damos conta de sua beleza e elegância.

Pessoalmente, gosto de definir Ciência como a contemplação da divina beleza do Universo, sem medo da emoção contida nesta frase. Sim, a Ciência é profundamente emotiva, não é nada fria. Ela é contemplativa, amorosa, está baseada em sentimentos de admiração diante do Grande Mistério.

E a Tecnologia o que é? A Tecnologia também não é fria, é muito quente. A Tecnologia aproveita-se dos conhecimentos, das informações que o diálogo limpo deu à Ciência para fazer artefatos, instrumentos. Ora, todo artefato serve a alguma vontade, a do inventor ou de seu patrão. Isto tem a ver com poder, por pequeno ou grande que seja. É uma atitude impositiva, é o contrário da atitude básica da Ciência, que é contemplativa.

Não queremos com isso dizer que a técnica é ruim em si. Pode ser boa, neutra, perniciosa, dependendo dos alvos que persegue. Mas, enquanto que a Ciência leva à atitudes de respeito, fascinação, amor, vontade de proteger, a técnica facilmente cai na agressão, é o que predomina no mundo moderno.

Vejamos uma metáfora. Digamos que um cientista e um tecnocrata se encontram diante de um espetáculo da Natureza. Estão observando o Pão de Açúcar no Rio. O cientista se encanta com aquele gigantesco monolito, uma rocha inteiriça de seiscentos metros de altura, com uma só fenda vertical. Terá que pensar como os milhões de anos de erosão geológica a deixaram com aquela forma. Conhecendo o material da rocha, gneiss, saberá que a Serra do Mar, da qual faz parte, surgiu uns seiscentos milhões de anos atrás, quando a deriva dos continentes empurrava a América do Sul em direção contrária à atual, que, do outro lado, está fazendo crescer os Andes. Da geologia irá até a cosmologia. Vislumbrará a formação do nosso sistema solar, uns quatro e meio bilhões de anos atrás. Saberá que os elementos mais pesados, além do hidrogênio e hélio, sem os quais nosso planeta não existiria ou seria apenas uma bola de gases, só podem ter-se originado muito antes do nascimento do nosso sol, numa supernova, centenas de milhões ou mesmo bilhões de anos antes. Quanto mais pensar em tudo isto, mais fascinado estará. Maior ainda será a fascinação quando observar a vida que cobre a rocha: os líquens, musgos, cactos, bromélias e outras plantas epílitas, os insetos e aves, mamíferos, répteis, o que hoje sobra de bosque na base, a vida no mar circundante. Terá que pensar no mais fantástico processo que conhecemos: a Vida em seus três e meio bilhões de anos de evolução orgânica, um processo sinfônico estonteante que, entre as milhões de formas e comportamentos dos seres vivos, da bactéria e alga microscópica à baleia e sequóia, também deu origem à nossa espécie, à nossa capacidade de percepção, de encantamento diante desta fantástica maravilha. Quanto mais observar, mais comovido estará, mais amor sentirá, mais sofrerá com os estragos que hoje se constatam.

Já o tecnocrata, vê as coisas de maneira bem diferente. Ele se pergunta: “que podemos fazer com isso? Além do potencial turístico, será que contém algum minério importante que podemos explorar? Quanto podemos ganhar com isso? Quem sabe, demolindo uma parte, aterrando o mar, poderemos obter grandes lucros na especulação imobiliária?” E, assim por diante.

As atitudes da Ciência e da Tecnologia são ambas profundamente emotivas, mas as emoções são de sinal contrário.

A Ciência e a Tecnologia, é claro, são inseparáveis. Assim como a Tecnologia se aproveita da Ciência, esta não progride sem a outra, sem telescópios, microscópios, aceleradores de partículas, lasers, chips e computadores, uma infinidade de instrumentos de medida cada vez mais precisos e sofisticados. O casamento é indissolúvel, mas é difícil, as partes têm caráter oposto. Um é contemplativo, o outro impositivo.

Na Ciência, como vimos, não pode haver mentira, por definição! Mas, observemos atentamente as tecnologias e, sobretudo, as infra-estruturas tecno-burocráticas que hoje predominam. Estão cheias de mentira, trapaça, logro, insinuação enganosa. É claro que as respectivas técnicas, em si, são tão perfeitas quanto possível, a mentira está nos objetivos, no uso e no aproveitamento destas pelo poder estabelecido.

Vejamos: no carro moderno, o motor, o carburador, a distribuição, refrigeração, engrenagens, transmissão, os pneus são verdadeiras maravilhas técnicas, inimagináveis no tempo do “Ford de bigode”. Mas, mudar quase todos os anos o modelo, modificando os enfeites, os plásticos do stop e das sinaleiras, o parachoque (de plástico) que não passa de enfeite também, insinuar status, isto é mentira. Está no mesmo nível moral da vigarice.

Uma das maiores trapaças da tecnologia moderna está na política da obsolência planejada, ou seja, no envelhecimento premeditado dos objetos, com as mudanças desnecessárias de modelo ou “styling” (este anglicismo já é para enganar), e com peças calculadas para não durarem, ou sistemas que não permitem reparação. O auge desta trapaça está no objeto de um só uso.

A lata de alumínio para cerveja ou refrigerante, usada uma só vez e jogada no lixo ou pela janela do carro, não deixa de ser de um objeto de grande técnica, mas é um absurdo energético. Pelas informações que tenho, sua fabricação consome cerca de um KWH por unidade. Ela é também um crime ecológico. Os três mil quilômetros quadrados de floresta prístina inundada em Tucuruí e as montanhas demolidas em Carajás têm a ver com este crime. Este tipo de lata nos foi apresentado como uma nova etapa no progresso – a lata anterior, de ferro, já era um absurdo – mas nenhum esforço foi feito para esclarecer o público consumidor dos custos ecológicos e sociais desta técnica.

No supermercado, as embalagens excessivas, super luxuosas, com etiquetas enganosas são outra mentira com grandes custos ambientais. Custos perfeitamente evitáveis, caso houvesse “marketing” honesto. Se a tecnologia fosse sempre honesta não haveria necessidade do tremendo aparato de publicidade que nos bombardeia a cada passo, que já insiste até em transformar os bebês em consumidores desenfreados. Infelizmente a maioria das pessoas é tão alienada, ou tão acostumada está, que não se dá conta do insultante que é grande parte desta publicidade.

No feudalismo medieval o exercício do poder era simples, eu diria honesto, porque aberto. Era através da força, as técnicas aplicadas eram transparentes para todos. Impossível confundir forca com arado. Hoje a situação é bem mais complexa e o exercício do poder nas chamadas democracias é bem mais sutil. O ideal da tecnocracia são estruturas tecno-burocráticas sempre mais envolventes e inescapáveis.

Aos jovens estudantes de agronomia sugiro que procurem entender o que aconteceu na agricultura nos últimos 50 a 70 anos. O camponês tradicional (infelizmente, em nosso país, com exceção do sul, predominou sempre o latifúndio), em termos sistêmicos, na economia como um todo, era esquema autárquico de produção e distribuição de alimentos. Ele produzia seus próprios insumos. O esterco de seus animais e o manejo orgânico mantinham a fertilidade do solo. A energia era humana e animal, ambas vinham de seu solo, era energia solar, fotossíntese. No mercado semanal, o camponês entregava seus produtos praticamente na mão do consumidor. Esta é a razão porque, em português, ainda dizemos, segunda, terça, quarta-feira, etc. Os poucos instrumentos e equipamentos que usava eram feitos pelo artesão, ferreiro ou marceneiro da aldeia, que também contava como camponês. Naquela situação, entre quarenta e sessenta por cento da população trabalhava na agricultura.

Argumenta-se hoje que a agricultura moderna, a agricultura empresarial é fantasticamente mais eficiente que a agricultura camponesa tradicional. Isto porque, em países do chamado Primeiro Mundo, só dois por cento ou menos da população são agricultores. Dois por cento da população seriam capazes de alimentar toda a população, enquanto que antes eram quarenta ou sessenta. Caso procedesse este argumento, realmente não teríamos alternativa. Mas esta conta é falaciosa, quando não, mentirosa.

Os que hoje se dizem agricultores, no contexto geral da economia da nação, são apenas pecinhas numa gigantesca estrutura industrial e burocrática, que inclui campos de petróleo, refinarias, siderurgias, fábricas de tratores e combinadas, indústria química, transportes, indústria de “beneficiamento” de alimentos que mais merecem o nome de indústrias de denaturação e contaminação de alimentos e muita, muita coisa mais. O economista moderno, em suas estatísticas vê a fábrica de equipamentos agrícolas como indústria metalúrgica, mas isto é agricultura. A fábrica de agrotóxicos e adubos é tida como indústria química, mas deveria contar como agricultura, porque faz parte do moderno esquema de produção e distribuição de alimentos. Se fizermos a conta completa, somarmos todas as horas de trabalho, direta ou indiretamente ligadas à produção e distribuição de alimentos, facilmente chegaremos também a quarenta por cento ou mais. Inclusive as horas de trabalho necessárias para ganhar o dinheiro para pagar o imposto que sustenta os subsídios (em nosso caso, repor as perdas da inflação) terão que ser adicionadas. Veremos que em termos de mão-de-obra houve pouco ganho. Houve, isto sim, uma redistribuição de tarefas. A pessoa sentada diante do computador no banco, que cuida dos créditos agrícolas, pode não considerar-se agricultor e nunca ter visto de perto uma lavoura, mas está neste negócio. Quem fizer cálculos completos e comparar atentamente, verá que o camponês tradicional também era mais eficiente em termos de produção por hectare. Diferença fundamental – a agricultura tradicional, camponesa, como a da Europa ou da China, era indefinidamente sustentável, a chinesa já dura três mil anos. A agricultura moderna não é sustentável. Além disso, ela tem horríveis custos sociais e tremendos custos ambientais. Em termos globais, centenas de milhões de pessoas foram marginalizadas pelo que friamente chamamos de “êxodo rural”. Os mais velhos se lembram muito bem, nossas grandes favelas começaram a surgir e crescer desde a década de quarenta.

Quando eu estudava agronomia, na mesma década, toda a pesquisa agrícola estava dirigida à melhora dos métodos orgânicos e ecológicos, sem que lhes déssemos esse nome. Dali para diante, a indústria foi tomando conta, conseguiu redirecionar ensino, pesquisa e extensão agrícola. Por favor, não me entendam mal, não estou pleiteando a volta a uma agricultura camponesa primitiva. Com o conhecimento científico que hoje temos, poderíamos já estar fazendo uma agricultura ecologicamente racional e socialmente justa, com estilo de vida, no campo, mais agradável e sadio que a vida nas atuais cidades.

Quem souber fazer contas, que estude de perto a produtividade dos modernos campos de concentração de galinhas, dos calabouços de porcos e dos confinados de gado. Verá que, na maioria dos casos, estamos destruindo mais alimento do que produzimos, e isto, com grandes estragos ambientais e sociais e enormes custos de energia. O que aumenta é a concentração de poder industrial.

Não vamos entrar em outros campos, como o da energia, do transporte e mais alguns. Importante é que nos demos conta de que são promovidas hoje não necessariamente tecnologias racionalmente concebidas para resolver de maneira simples, menos agressiva, mais ecológica, problemas de reais necessidades humanas. Não, o que se promove e impõe, são tecnologias e estruturas que concentram poder.

Devemos, portanto, aprender a distinguir entre tecnologias “duras” e “suaves”. Mas hoje, em nossa atual cultura, a grande maioria das pessoas é completamente ignorante naquilo que mais esta cultura caracteriza, em Ciências Naturais e em Tecnologia. Não tem condições, portanto, de distinguir. Isto é um desastre político-cultural que, quanto menos é levado em conta pelos políticos, tanto maior ele é. Estes costumam ser os mais ignorantes e mais safados, e que, quase sempre, aceitam como seus, os argumentos da Tecnocracia.

Quando um empresário diz: “isto não podemos fazer, não é econômico”, ou “não tem outra maneira de fazê-lo, seria antieconómico”, ele está pensando na economicidade de sua empresa. Mas, o político deveria pensar na economicidade para a Nação. Quando a política confunde economicidade de empresa com economicidade nacional, está aceitando cegamente aquele argumento de um dos chefões da General Motors que dizia: “What´s good for GM is good for the USA.” O que é bom para minha empresa, é bom para o país? Nem sempre!

Mil aspectos mais poderíamos citar e elaborar, sobre como hoje o poder e a criação de dependência são sustentados pelas tecnologias duras, e como as tecnologias verdadeiramente humanas, racionais e ecológicas são desmoralizadas, combatidas e suprimidas. Quero, com isso, motivar muitos jovens inteligentes, com preocupação social e ecológica a que ampliem seu horizonte científico, técnico, cultural e ético, e passem a examinar com atenção nossa atual civilização. Que participem, então, da necessária revolução ética, sem a qual não teremos futuro.

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