Sobre arrogância do político e colonialidade

Pesquisador francês analisa papel do colonizador — aquele que almeja o reconhecimento de sua superioridade numa demonstração de força acompanhada, muitas vezes, por um paradoxal “ódio de si”

Por Yves Déloye

Yves Déloye, professor na Universidade de Bordeaux, França e um dos organizadores do Colóquio Arrogância, abre a série de textos publicada sob o título Ensaios sobre a Arrogância. Para o autor, ao ferir o outro, a arrogância tem um poder performativo, pois a fala arrogante é percebida pelo seu destinatário como uma agressão.

Yves traça um vasto e cuidadoso panorama semântico da palavra “arrogância”, de uso desde 1411 na língua francesa para, em seguida, debruçar-se no contexto do colonialismo. A arrogância do político atualiza a dominação ao negar o outro. O colonizador almeja o reconhecimento de sua superioridade em uma demonstração de força que, às vezes, é acompanhada “por uma recusa de si” ou até mesmo pelo “ódio de si” projetado no colonizado, como uma forma de compensação de sua própria mediocridade.

A humilhação do outro reforça o gesto de arrogar os seus recursos. Yves Déloye analisa o antissemitismo que a Argélia conheceu no período que abarca a segunda metade do século XIX até a sua descolonização. Em 1870, com o decreto Crémieux, trinta e cinco mil judeus da colônia francesa obtiveram o mesmo estatuto jurídico que os demais colonos instalados desde 1830, o que provocou uma violenta reação antissemita. A virulência e a persistência dos colonos em negar essa situação de fato levou o governo de Vichy a revogar esse decreto setenta anos depois, em 1940. O autor conclui que o emprego de esteriótipos e da figura da “arrogância judaica” como uma denúncia simbólica e injuriosa visou afastar “todos aqueles que ameaçam a reprodução da ordem colonial e de suas desigualdades tanto materiais como simbólicas.” (Myriam Bahia Lopes)

Ao ferir o outro, a arrogância tem um poder performativo determinante, no sentido em que o compreende Judith Butler, [1] que tão bem traduz o uso estabelecido na língua francesa – desde 1411 – que transforma “uma arrogância” em “fala arrogante” [2] que fere o seu destinatário, que a percebe, com razão, como uma agressão.[3] Observemos, também, que nos primeiros tempos, o termo “arrogância” se empregava muito mais em relação ao comportamento de indivíduos que, por suas falas ou por seus comportamentos e gestos, mostravam-se “arrogantes” do que, por extensão, para dar conta de uma atitude coletiva ou institucional (a arrogância de uma entidade humana, de um país, de uma nação, de uma instituição). Foi somente no século XVIII, segundo as fontes aqui consultadas, que esse sentido coletivo – hoje muito difundido – se desenvolveu.

Próximo dessa forma linguística, dois outros termos merecem ser evocados: o adjetivo arrogação [“arroguement” ou mais frequentemente “arroguemment”] e o verbo “arrogar-se” (do latim “arrogare”). Se o adjetivo caiu em desuso, seu antigo campo de aplicação lexical é particularmente revelador. Ainda hoje, atribuído à ação ou à fala de uma pessoa, o adjetivo assinala o extrapolamento da medida que convém às interações sociais normais.

Isso quer dizer que também nesse caso o termo assinala, ao mesmo tempo, uma forma de provocação e a sua condenação, um comportamento considerado patológico e a sua reprovação. O emprego desse adjetivo assinala também o fato de se atribuir de maneira inconveniente uma honra ou os benefícios exclusivos de uma ação. Por outro lado, o verbo “arrogar-se” tem origens diferentes, visto que, de início, ele é sinônimo de “adotar” e significa o ato pelo qual uma criança abandonada muda de estatuto jurídico.[4] Outro uso é, contudo, assinalado desde meados do século XV, quando o termo tomou o sentido que ainda é o seu atualmente: o verbo “arrogar-se” descreve o fato de “tirar vantagem de” ou, ainda, a ação material e física de “apropriar-se”, de “atribuir-se alguma coisa sem ter direito”.[5] É interessante observar que na base de dados do Trésor de la langue française, esse verbo é sobretudo relacionado sintaticamente com as seguintes palavras aparentadas: “déspota”, “despótico”, “direito”, “usurpação” [empiétement / empiètement], “enfatuação”,[6] “preeminência” ou ainda “pretensão”.

Para completar esse panorama semântico, precisaremos, por fim, a proxemia do termo “arrogância”, proposta pelo mesmo Trésor de la langue française [7] para o período contemporâneo.

De maneira muito sugestiva, o termo tem proximidade semântica com os seguintes termos (enunciados aqui por ordem de sinonimia): “intrepidez” [cœur] (82), “tolice” [sottise] (70), “segurança” [assurance] (60), “grosseria” [grossièreté] (56), “altivez” [hauteur] (56), “vaidade” [vanité] (50), “liberdade” [liberté] (49), “ousadia” [hardiesse] (49), “coragem” [courage] (49), “devassidão” [licence] (49), “soberba” [superbe] (44), “superioridade” [supériorité] (42), “audácia” [audace] (41), “temeridade” [témérité] (40), “pretensão” [prétension] (32), “confiança” [confiance] (31), “importância” [importance] (31), “desenvoltura” [désinvolture] (30), “impertinência” [impertinence] (30), “orgulho” [fierté] (30), “inconveniência” [inconvenance] (28), “atrevimento” [aplomb] (27), “insolência” [insolence] (27), “ostentação” [ostentation] (27), “indecência” [indécence] (26), “presunção” [suffisance] 26, “incorreção” [incorrection] (25), “imprudência” [imprudence] (24), “desprezo” [mépris] (24), “desplante” [culot] (23), “impertinência” [outrecuidance] (23), “topete” [toupet] (22), “menosprezo” [dédain] (21), “valentia” [crânerie] (21), “impolidez” [impolitesse] (20), “desdém” [morgue] (20), “condescendência” [condescendance] (17), “amor-próprio” [amour-propre] (17), “atrevimento” [effronterie] (16), “irreverência” [irrévérence] (16), “enfatuação” [infatuation] (16), “fatuidade” [fatuité] (15), “jactância” [jactance] (15), “cinismo” [cynisme] (12), “gloríola” [gloriole] (8).

Dois universos semânticos bastante distantes um do outro aparecem aqui: o primeiro (minoritário tanto pelo número de termos quanto pela intensidade dos laços entre eles) é mais positivo e traduz a “coragem” e o não conformismo daquele que tem “arrogância por outrem”; o segundo universo (muito mais rico no plano semântico) confirma a dimensão negativa da significação do termo que tende a convergir com seu emprego atualmente usual, esse de um “comportamento feito de desprezo e de insolência, frequentemente afetado”. (8)

Para dar prosseguimento a essa exploração indissociavelmente semântica e histórica, parece-nos útil distinguir – ao menos no tempo da análise – as duas dimensões que se sedimentaram progressivamente no emprego moderno do termo “arrogância” e das formas semânticas que lhes são associadas: uma dimensão descritiva (ou material) e uma dimensão simbólica (ou performativa). O interesse dessa tipologia é levar em consideração as configurações históricas, mas também psicológicas, que estão na origem das práticas, dos discursos, das representações ou das políticas da arrogância. Propomos ilustrar empiricamente nosso propósito a partir do exemplo da situação colonial, especialmente francesa, que nos parece suscetível de fazer interagir essas duas dimensões constitutivas, a nosso ver, de todas as políticas da arrogância.

A situação colonial como ilustração da arrogância descritiva ou material

Graças aos trabalhos de George M. Fredrickson (1934-2008)[9] ou aqueles mais antigosk de A. Memmi,[10] sabe-se o quanto a experiência colonial – com frequência indissociavelmente racial – é particularmente propícia historicamente à emergência e à afirmação de atitudes não apenas violentas mas fundamentalmente “arrogantes”. Ainda que esse termo permita descrever e elucidar as atitudes, os gestos, as condutas psicológicas e sociais que participam das relações certamente instáveis – de poder e de dominação que a “situação colonial”[11] instaura em benefício dos colonizadores, seu uso permanece, a nosso ver, muito frequentemente metafórico na literatura aferente a esse campo. Dar provas de arrogância em tal contexto significa afirmar e, mais ainda, reivindicar uma superioridade quase sempre racial (a famosa “supremacia branca”[12] que se cristalizou no discurso culto e político do século XVIII), que, pelo viés de comportamentos, condutas, tipificações, estereótipos e injúrias acaba por encorajar o sujeito a ser imbuído de si mesmo a fim de “arrogar-se” uma posição dominadora e nela se manter.

Trata-se aí de uma forma descritiva e exacerbada de arrogância, arrogância que será edificada enquanto verdadeira política de dominação e de exploração em “situação colonial”.

A releitura dos textos de Alberto Memmi, hoje, talvez, muito esquecidos, permite desenhar sumariamente essa figura histórica da arrogância colonial. É em Portrait du colonisateur (MEMMI, 1957) que convém procurar as razões tanto históricas como psicológicas dessa necessidade de afirmação de si que favorece a negação de outrem e até mesmo o desejo de aniquilá-lo. Após ter evocado as razões fundamentalmente econômicas da trajetória biográfica colonial (“ganha-se mais e gasta-se menos”) (MEMMI, 1957, p. 34), depois de ter varrido de uma vez por todas as falsas razões “civilizacionais” da colonização, o autor insiste sobre a maneira pela qual o colonizador constrói (em todos os sentidos do termo) sua “relação” com o colonizado; relação fundamentalmente desigual, pois, “mais [o colonizador] respira à vontade, mais o colonizado sufoca” (Ibid., p.38).

Figura particular da usurpação ilegítima, o colonizador deve aprender a viver e a administrar essa situação. É preciso sobretudo que ele se “acostume com os olhares” (Ibid., p. 39) daqueles que só podem condená-lo porque, “estrangeiro, vindo de um país pelos acasos da história, ele conseguiu, não apenas criar um lugar para si mas tomar aquele do habitante, outorgar-se [o autor poderia ter escrito “arrogar-se”] privilégios surpreendentes em detrimento daqueles que têm direitos” (Idem). Portanto, é menos unicamente a desigualdade de posição que está aqui em causa do que o caráter ilegítimo dessa situação, ilegitimidade “não somente aos olhos do colonizado, mas aos seus próprios olhos” (Idem, grifo nosso).

É esse duplo olhar negativo (o do colonizador e aquele dos colonizados) que faz a singularidade da relação colonial e leva, a nosso ver, o colonizado a “ser arrogante” com o outro, um outro frequentemente racializado, para melhor diferenciá-lo de si e desconsiderá-lo, e sempre rebaixado, para melhor dominá-lo (economicamente, socialmente e politicamente). A afirmação exacerbada do si [mesmo] colonizador, sua necessidade absoluta de reconhecimento de sua superioridade vai às vezes de par com a recusa de si, e até mesmo com “o ódio de si”, no colonizado. Se o discurso colonialista[13] permitiu alimentar e justificar essa necessidade de valorização e de afirmação de si mesmo nos colonizadores, ele não conseguiu, explica-nos Memmi, evitar que o colonizador se concebesse como um homem medíocre[14] e desenvolvesse uma forma de “desprezo de si”[15] que pode explicar a radicalidade da arrogância colonial e, com isso, o impasse histórico das situações coloniais. Sugerir-se-á também que a arrogância possa ser, assim, uma atitude de “compensação” (o termo é emprestado de A. Memmi) em relação a uma mediocridade que “impõe o tom geral da colônia” (Ibid., p. 80). Ao aceitar “o fato colonial”, o “colonizador” tornado “colonialista” se fecha numa economia de relações de dominação que aspira todos aqueles que sonham em “construir [sua] vida na colônia” (Ibid., p. 76).

Em um capítulo dedicado a essa inelutável transformação (do colonizado em colonialista), A. Memmi descreve muito bem o lugar da arrogância nessa mutação, que é tanto social quanto psicológica: “Quantos eu vi, vindos da cidade, tímidos e modestos, repentinamente providos de um título surpreendente [o de colonizador], veem sua obscuridade iluminada por um prestígio que os surpreende a si mesmos. Em seguida, sustentados pelo corpete do papel social, eles reerguem a cabeça e, tão logo, tomam uma confiança tão desmedida em si mesmos que se tornam estúpidos” (Ibid., 77). Longe de já estar ali como um dado natural impondo-se aos atores, a arrogância colonial se constrói no próprio movimento da colonização que produz tanto as condições de sua dominação quanto a sua justificativa ideológica. Em passagens muito preciosas, o autor indica também que essa dominação supõe uma série de encenações [mises en scène] do prestígio e da grandeza colonial que visam “impressionar” os colonizados. Encontra-se aí o laço essencial entre a economia do gesto colonial, sua violência simbólica atestada pela arrogância colonial e sua necessidade permanente de mostração pública.

Por ser consciente de usurpar sua posição, o colonizador busca em vão justificá-la e torná-la legítima. É essa procura de uma impossível justificativa que está, no final da análise proposta por A. Memmi, no cerne do processo de produção da arrogância colonial. Para tentar justificar sua ação colonial, o colonizador, nos diz o autor, dá início a duas atitudes que não cessarão de aprofundar a distância para com os colonizados e acentuar sua arrogância em relação a eles: “demonstrar os méritos eminentes do usurpador, tão eminentes que eles pedem tal recompensa ou insistir sobre os deméritos do usurpado, que de tão profundos só podem suscitar tal desgraça”. Prosseguindo: “esses dois esforços são, de fato, inseparáveis. Sua inquietude, sua sede de justificativa exigem do usurpador que ele se erga às nuvens e que, ao mesmo tempo, rebaixe o usurpado mais baixo que a terra” (Ibid., p. 82-83).

Passagem sugestiva para compreender “o complexo de Nero”, que não cessa de aprofundar o abismo entre as duas figuras que interagem em toda situação colonial; interação que condena um a humilhar o outro para melhor dominá-lo e assim arrogar-se seus recursos. A exemplo de Nero, o colonizador é aqui condenado à arrogância: “Portanto, mais o jogo do mecanismo vai se acentuar, constantemente determinado, agravado por seu próprio ritmo. A rigor, o usurpador tenderia a fazer desaparecer o usurpado, que somente por sua existência o afirma como usurpador, e cuja opressão, cada vez mais forte, o torna cada vez mais opressor. Nero, figura exemplar do usurpador, é assim levado a assediar raivosamente Britannicus, a persegui-lo. Contudo, mais ele lhe fará mal, mais ele coincidirá com esse papel atroz que escolheu para si. Mais ele afundará na injustiça, mais ele odiará Britannicus e buscará atingir ainda mais a sua vítima, que o transforma em carrasco” (Idem). Por sua própria dinâmica feita de fatalidade e de interação, a arrogância colonial é condenada a se reproduzir e a se perenizar, e isso tanto mais que economicamente o colonizador não pode destruir simbolicamente a fonte de seu enriquecimento.

É, portanto, no cerne da “conexão” entre colonizador e colonizado que convém, sociologicamente, buscar as razões da arrogância colonial. Longe de ser somente um traço de personalidade, um erro pessoal de apreciação, a arrogância colonial deve ser compreendida como o resultado histórico da interação colonial que faz “que a maioria das condutas do colonizador tivessem uma repercussão sobre a existência do colonizado e sobre suas condutas.” E vice-versa. Arrogância e humilhação ilustram a força do “duo colonizador-colonizado”. [17]

O antissemitismo colonial como ilustração da arrogância simbólica ou performativa

Se, como acabamos de indicar, “quase sempre o colonialista se entrega igualmente à desvalorização sistemática do colonizado” (Ibid., p. 96), pode-se compreender o forte laço que existe entre o desenvolvimento da “arrogância colonial” e as formas ainda mais radicais de negação do outro e da propriedade de si: escravagismo, racismo e antissemitismo. Os trabalhos de G. M. Fredrickson, evocados anteriormente, mostraram muito bem a articulação histórica que convém estabelecer entre essas diferentes formas de arrogância que se alimentam mutuamente, ao menos depois do final do século XVII. Exacerbação das diferenças, afirmação de uma supremacia “racial” que justifica o aviltamento de outras “raças”, obsessão pela distância, sacralização da autoctonia e das origens: todos esses elementos estão no centro dos discursos, das representações e das práticas antissemitas e racistas, particularmente reforçadas pelo fato colonial. Nesse contexto específico, a dominação colonial[18] favorece uma pluralidade de formas de recusa do outro que fazem das terras coloniais laboratórios particulares da xenofobia, do racismo e do antissemitismo: recusa do colonizado, recusa do mestiço,[19] recusa do estrangeiro. O fundamento das atitudes e discursos do ódio que aí se revelam deve, em nossa opinião, ser procurado principalmente na busca de uma “distância” que a arrogância permite simbolizar e manifestar publicamente. Como escreve A. Memmi, “é preciso explicar essa distância que a colonização coloca entre ele [o colonizador] e o colonizado; ora, para se justificar, ele é levado a aumentar ainda mais essa distância e a opor irremediavelmente as duas figuras: a sua, tão gloriosa, aquela do colonizado, tão desprezível” (Ibid., p. 84).

Por não poder desenvolver tudo nesse texto, vamos apoiar nossa demonstração conclusiva essencialmente em um caso estudado: esse do antissemitismo veemente que a Argélia vai conhecer na segunda metade do século XIX até a sua descolonização. Sabe-se que a situação dos judeus na Argélia será profundamente afetada pela decisão do Gouvernement de la Défense Nationale (decreto de Adolphe Crémieux, de 24 de outubro de 1870, chamado comumente “decreto Crémieux”, conforme o nome do Ministro da Justiça da época) de conceder cidadania aos 35 mil judeus da colônia e colocá-los, assim, em pé de igualdade jurídica com os colonos que ali se encontravam instalados desde 1830.

Como mostramos em outro texto,[20] essa emancipação jurídica vai ser acompanhada de uma virulenta reação antissemita por parte da sociedade colonial, que recusará obstinadamente reconhecer essa igualdade de fato, de tal modo que o governo de Vichy, do Marechal Pétain, revogará esse decreto em outubro de 1940. Ao contrário, longe de acabar, a diferença entre a população judaica argelina[21] e os colonos não cessará de aumentar, a ponto de fazer surgir fortes violências antissemitas, tanto no momento do Affaire Dreyfus[22] como mais tarde, no período entre guerras.[23] Juridicamente iguais, judeus e colonos não participarão do mesmo imaginário cívico: de maneira constante, o discurso antissemita dos colonos, às vezes revezados por aqueles dos outros europeus instalados na Argélia, não cessará de negar aos judeus argelinos emancipados seus direitos de participarem da mesma comunidade política imaginada.

Presos numa série de estereótipos de aparência contraditória – que denunciarão tanto a sua “covardia” como a sua “arrogância” –, os judeus argelinos são sistematicamente remetidos a duas formas de diferença incomensurável: “obsequiosos” e “hábeis” quando procuram atingir os seus objetivos, eles se tornam “arrogantes” e “imbuídos” de si mesmos quando são bem sucedidos social ou politicamente. O que resume bem esse retrato contrastado redigido por um autor antissemita em 1883. Num primeiro tempo, o autor os descreve assim: “Ele está passando… Vejam, a cabeça baixa, o olho baixo, tentando não se mostrar, arrastando o que resta de uma babucha. Ele suputa com os dedos alguma nova tentativa de lucro, e o ‘por cento’ se debate em sua boca”. Para melhor, num segundo tempo, revelar a seus leitores os verdadeiros traços de sua personalidade: “Saciados, fartados, bebendo o excedente de seus crimes. Chafurdados em almofadas macias, no fundo de uma caleça, eles debocham de suas vítimas, esparramando, sem pudor, os ricos despojos dos mártires… eles, os assassinos”.[24] De apagados por razões táticas, os judeus se revelam no final, publicamente, nessa mostração impudica que revela o poder que ele não cessa de acumular no imaginário colonial: “… eles nos tomaram tudo: comércio, terra, empregos, honras, banco, Imprensa e Poder!”.[25]

Denunciar “a arrogância judaica” é certamente uma figura de estilo frequente, compartilhada tanto pela literatura geral como pelo discurso antissemita, mas ela toma uma força performativa particular na “situação colonial”. Como outras palavras, essas acusações injuriosas têm a capacidade de ferir aqueles que são o seu objeto e de rebaixá-los a um lugar do qual eles não deveriam jamais ter saído. Como indica J. Butler, é em sua “historicidade discursiva”[26] como em sua repetição antiga que convém procurar a autoridade de tais injúrias antissemitas. Em terras coloniais, essas injúrias visam legitimar a dominação colonial: por uma estranha reviravolta na situação, “a arrogância colonial” se encontra de certa forma atenuada pela capacidade do discurso antissemita de imputar a responsabilidade dessa dominação aos judeus recentemente emancipados. Nesse discurso e nesse imaginário coloniais, de dominadores os colonos se tornaram dominados; de arrogantes, tornaram-se mártires; ao passo que, pelo mesmo movimento, os judeus teriam transformado o estigma da humilhação numa forma de arrogância sem limites, numa sede[27] de reconhecimento que faz esquecer a vontade de destruição que anima o discurso colonial e racista. Essa transmutação oferece, assim, ao discurso colonial, a vantagem de restabelecer definitivamente uma distância essencial entre os colonizadores e aqueles que o decreto Crémieux havia impudentemente, por um tempo, tornado semelhantes no plano cívico. Ao final desse discurso de ódio, a distância foi reconstituída e os judeus foram encerrados num antigo estigma: esse de uma “arrogância” que justifica, de agora em diante, as perseguições que os aguardam. A denunciação simbólica e injuriosa da “arrogância judaica” permite ocultar em parte a arrogância material que está no cerne da política colonial. Essa denunciação oferece, assim, a vantagem de afastar (em todos os sentidos do termo) todos aqueles que ameaçam a reprodução da ordem colonial e de suas desigualdades tanto materiais como simbólicas.

Traduzido do francês por: Yolanda Vilela


Notas:
[1] BUTLER, 2004.
[2] REY, 1992, tome 1, p. 117, 2ème colonne.
[3] O que explica a frequente proximidade, no francês antigo, da palavra com o vocabulário da injúria. O que ilustra esta citação tomada de um texto de 1397: “Pierot arrogoit le suppliant de paroles injurieuses” [Pierot arrogava o suplicante com palavras injuriosas] (ver anexo I).
[4] No francês antigo, o termo “arrogation” designa “o ato solene pelo qual se adota como filho uma pessoa que não está mais sob o poder paterno” (GODEFROY, F. Dictionnaire de l’ancienne langue française et de tous ses dialectes du IXe au XVe siècles, Paris, 1881. Disponível em: http://micmap.org/dicfro/chercher/dictionnaire-godefroy.
[5] REY, A. 1992, tome 1, p. 117, 2ème colonne.
[6] Substantivo feminino, atualmente esquecido, que traduz “uma satisfação excessiva ou ainda uma admiração ridícula que uma pessoa sente pelo que ela acredita ser, pelo valor que ela atribui ao que faz” (Trésor de la langue française. Disponível em: http://atilf.atilf.fr).
[7] Disponível no site do Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales. A lista dos termos apresentados aqui é oriunda da tela de proximidade (sinonímia) proposta pela aplicação informática do site do CNRTL (<http://www. cnrtl.fr>). Os números entre parênteses indicam as ocorrências dos termos colocados em proximidade.
8 Pour reprendre ici la définition proposée par le Trésor de la langue française déjà cité. Para retomar aqui a definição proposta pelo Trésor de la langue française já citado.
9 FREDRICKSON, 1988. Ver também Fredrickson (2003).
10 MEMMI, 1973.
11 Ver aqui o texto fundador de BALANDIER, G. “La situation coloniale: approche théorique”. In: Cahiers internationaux de sociologie, 11, 1951, p. 44-79.
12 Ver aqui FREDRICKSON, 2003, cap. 2. Para o caso francês, nos reportaremos também ao estimulante livro de BANCEL; BLANCHARD; VERGÈS, 2003.
13 Ver RUSCIO, 2002.
14 MEMMI, 1973, p. 78 e seg.

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