Os donos do rio – 4ª Canoada Xingu

Os donos do rio

A Canoada Xingu, expedição com 94 pessoas, percorreu a Volta Grande do Xingu (PA) com indígenas e ribeirinhos para verificar as mudanças de Belo Monte e promover alianças entre a comunidade científica, formadores de opinião e as populações locais.

Por Isabel Harari, jornalista do ISA

“Somos os Yudja, os donos do rio Xingu. Por isso que a gente briga, batalha, discute e faz o que for necessário para defender esse rio que pertence a nós”, conta Jailson Juruna, o Caboco,em frente à cachoeira do Jericoá, na Volta Grande do Xingu (PA). É o ponto final da Canoada Xingu, expedição com 94 pessoas, que percorreu a região a fim de monitorar as mudanças provocadas pela hidrelétrica de Belo Monte.

A cachoeira do Jericoá, sagrada para os Yudja — ou Juruna como são conhecidos na região — já não jorra tanta água. Após o barramento do rio por conta da hidrelétrica de Belo Monte, há quase dois anos, a vazão natural do rio deixou de passar na região para encher os reservatórios e operar a casa de força principal da usina.

“O Xingu não é mais o mesmo. Ver essa seca me deixa com o coração partido, mas vamos continuar lutando por ele”, reitera Caboco, liderança da aldeia Mïratu, Terra Indígena Paquiçamba, que fica a menos de 10 quilômetros de Belo Monte.

Desde a instalação da usina, o Rio Xingu sofre impactos que mudaram radicalmente a vida de indígenas e ribeirinhos que ali vivem. Dificuldade em navegar por trechos do rio, desaparecimento de locais de pesca tradicionais, aumento de pragas, diminuição e morte de peixes são alguns dos exemplos mais contundentes.

Jailson “Caboco” Juruna, na região do Jericoá. Foto: Isabel Harari/ISA.

O fechamento das comportas e o barramento definitivo do rio, em novembro de 2015, intensificou essas mudanças.“Trazemos essas pessoas para que elas vejam com os próprios olhos o impacto que Belo Monte deixou. Trazemos essas pessoas para que levem para fora essa realidade, porque a luta ainda não acabou”, completa Caboco.

Na água e na pele

Entre os dias 5 e 9 de setembro 13 canoas tradicionais atravessaram o reservatório de Belo Monte — um imenso lago artificial criado para geração de energia — as corredeiras e pedrais da Volta Grande do Xingu para sentir na pele as transformações provocadas pela hidrelétrica. Foram cinco dias e 110 quilômetros de remada junto com os Juruna e ribeirinhos que, além de denunciar os impactos da usina, mostraram como aprenderam a viver e resistir em um ambiente transformado.

“Remar com os Yudja é uma oportunidade única de conhecer o rio através dos olhos e das mãos de quem é dono do rio. A velocidade do remo, mais devagar, gera uma oportunidade de interação com o rio, floresta e povos em outro ritmo, com muito mais profundidade”, conta Marcelo Salazar, coordenador adjunto do programa Xingu, do Instituto Socioambiental e um dos idealizadores da atividade.

A Canoada Xingu é uma atividade realizada pela Associação Indígena Yudja Miratu da Volta Grande do Xingu (Aymix) em parceria com o ISA desde 2014. Busca, além de monitorar as transformações na região, procurar aliados dos povos do Xingu na luta por seus direitos e seus território.

A novidade desde ano foi a participação de um grupo de pesquisadores — entre antropólogos, geólogos, biólogos, especialistas em ictiofauna e na qualidade da água. O objetivo é incitar o debate sobre os impactos na região de modo que os conhecimentos tradicionais dos povos sejam considerados em pesquisas de diversas áreas.

“É preciso ampliar as pesquisas sobre os impactos na Volta Grande que têm sido negligenciados nos relatórios técnicos assinados pela empresa empreendedora de Belo Monte, promovendo uma maior sensibilização dos cientistas com relação aos saberes tradicionais destes povos”, comenta Thais Mantovanelli, antropóloga que acompanhou a Canoada.

O professor Ingo Wahnfried, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) se surpreendeu com a diversidade de pessoas que participaram da atividade. Para ele, que é da área de Geociência e especialista em hidrogeologia — o estudo de águas subterrâneas — , a interação com ribeirinhos e indígenas foi “fantástica”. “Quando você ouve as outras pessoas você consegue ter um olhar mais amplo. É isso que falta no Brasil, a sensibilidade de enxergar através do olhar de uma pessoa diferente”.

Leia mais, veja as fotos, clicando aqui

Medium/Instituto Socioambiental

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