“Ambientalistas, pensando bem, somos nós”

Os Mbyá-Guarani possuem uma relação de parentesco com o meio ambiente. Na foto, o Cacique Jaime Vherá Guyrá com sua família em Viamão (RS) – Crédito: Bruna Jordana

O Brasil é um país com uma grande diversidade de etnias indígenas.  Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), existem cerca 225 povos nas terras “tupiniquins”. A reportagem visitou uma aldeia Mbýa-Guarani em Viamão a fim de compreender a forma como eles olham para natureza e entrevistou o escritor indígena Daniel Munduruku para falar sobre a inclusão desses povos nos debates ambientais.

Por Bruna Jordana e Paula Schuster
Jornalismo Ambiental – Campus Zona Sul / Noite

O relógio marcava 19:00 horas quando chegamos no Delfos, espaço reservado para palestras e debates dentro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A sala, embora pequena, estava com todos seus assentos ocupados: aguardavam a chegada de Daniel Munduruku, que, com 53 anos, é o principal escritor indígena do país.

Logo no início da palestra, Daniel avisa que pretende fazer provocações ao longo do debate. Em meio a tanto conhecimento compartilhado, ele não decepciona e reflete: “Deve-se pensar que, se o Brasil tem essa configuração ecológica, que nós temos ainda hoje, considerado o pulmão do mundo, considerado o país verde ainda, certamente não é por conta do agronegócio. Certamente não é por conta dos mineradores. Certamente não é por conta dos grandes latifundiários. Isso é por conta da resistência que as populações indígenas sempre colocaram a serviço do Brasil, portanto, a serviço de todos nós”.

Pautados na imaginação de nossos estereótipos, eles são vistos como caras pintadas, cujos corpos dançam nus em roda de fogueiras. Os chamamos de índios, sem saber que, ressalta Daniel Munduruku, “não existem índios no Brasil”. A figura dos selvagens caricatos e a visão genérica do outro ignora todos os costumes e tradições existentes em cada tribo e etnia, além de rejeitar os diversos avanços na área ambiental conquistados pela atuação deles.

A terra protegida

Na tribo da Estrada do Cantagalo em Viamão (RS), o saber Mbyá Guarani revela a relação de respeito existente com a terra, considerada sua mãe.

Na aldeia do Cantagalo, os Mbyá Guarani vivem em casas simples, próximos sempre da natureza – Crédito: Paula Schuster

Debaixo da forte chuva, a estrada de chão batido alagara em algumas partes. Uma placa de “Área protegida” marcava a entrada da chamada tekoá: termo que significa terra manejada segundo os valores e obrigações – o tekó -, mas que pode ser traduzido como aldeia guarani para português.

Jaime Vherá Guyrá, de sorriso tímido, tem fala tranquila e rosto com expressões marcantes, evidenciando sua trajetória de vida ao longo dos 34 anos. Ele é o cacique, representante que fala por cerca de 50 famílias, habitantes dos 280 hectares da aldeia.

Apesar do tempo cinzento, ele não foi o único a dar-nos alegres boas vindas: da floresta localizada em frente à sua casa, dois filhotes selvagens de quatis vieram ao nosso encontro, procurando brincadeira. Para os Guaranis, não há uma separação entre sociedade e natureza fazendo com que sua relação tenha de ser sempre respeitosa.

Ao nos apresentarmos, o silêncio manteve-se por alguns segundos, quebrado somente pelo canto dos pássaros e os assobios do vento. Então, fomos convidadas não somente a nos sentarmos de baixo de um galpão – improvisado com tocos de madeira -, mas a ouvirmos a visão complexa e única dos Guaranis sobre o meio ambiente e todos os recursos presentes nele.

O saber Guarani
O cacique da aldeia, Jaime Guyrá, conta a visão dos Mbyá Guarani sobre temas ambientais – Crédito: Paula Schuster

Jaime Guyrá começou a falar, quase que em tom de desabafo: disse que sua aldeia tem sentido a presença de pouca vida ultimamente. A relação dos Guaranis com a natureza é de existência mútua: sem ela, não há, consequentemente, os Mbyá.

Quando pensamos em desmatamento, instantaneamente podemos lembrar das grandes derrubadas de florestas na Amazônia. Ao indagarmos o cacique sobre seu entendimento do termo, ele relembra de todos os lugares desflorestados dentro da aldeia para a construção de moradias, ressaltando o cuidado do povo de replantar naquele pedaço, a fim de devolver à terra aquilo que lhe foi tirado.

Já o ato da queimada, para os Guaranis, tem inclusive um significado religioso. As crianças possuem uma ligação com os espíritos presentes na natureza, os quais indicam os lugares que devem ser incendiados para algo novo ser plantado no local. Elas detêm, para eles, mais sabedoria do que os mais velhos, tendo em vista seu conhecimento espiritual.

A poluição é sentida por eles através do deslocamento, quando vão para o centro da capital Porto Alegre, há cerca de 30 quilômetros da aldeia. Muitas das crianças quando voltam para casa sentem-se diferentes, o que é entendido como falta de saúde.

Além disso, perguntamos se já tinham ouvido falar de agrotóxicos: desajeitado, o cacique admite que isso eles conhecem como veneno e que costumam comer os alimentos plantados por eles, sem fazer o uso do produto: “Botar veneno na terra é dar veneno para a nossa mãe sabe, é a nossa mãe que sustenta nós, a terra”, ensina o Mbyá-Guarani.

Sentindo o preconceito

De todas as perguntas, somente uma gerou certo desconforto: como Jaime Vherá Guyrá e seu povo sentiam-se em relação a nós, brancos?  Pensativo, ele respondeu inicialmente que era difícil falar sobre, após revelando que sentia-se mal ao ver os Guaranis na cidade. Afirmou, porém, que não estavam pedindo esmola, querendo apenas vender seu trabalho e garantir sua sustentabilidade – palavra que, para os moradores da aldeia do Cantagalo, significa sustento de vida.

Questionamos se de alguma forma eles se sentiam diferentes em relação a nós: Jaime disse entender que temos outra cultura, mas sente muitas vezes que somos obrigados a oferecer carona a eles, como se não fosse um ato feito por vontade própria.  No transporte público essa sensação também se repete. “É muito difícil isso, a gente senta no banco do lado de um branco e o branco sai, senta em outro lugar. No meio daqueles brancos a gente é atrapalhado, a gente atrapalha”, desabafa o cacique.


As raízes de um povo

O tronco é Tupi, os galhos são Guaranis e as folhas Mbýa.
A aldeia que a reportagem visitou abriga a etnia Mbýa-Guarani, um subgrupo que, ao lado de Kaiowá e Nhandeva, fazem parte dos Guaranis originados do Tupi.
Eles habitam as terras brasileiras antes mesmo da chegada dos espanhóis e portugueses: o povo sobrevive resistindo a todas as pressões, mortes e ameaças contra o seu modo de ser.
Em Viamão, os Mbýa-Guarani vivem em terra reconhecida há 35 e seguem tentando manter no Cantagalo  a religião, a língua, o plantio e a história do seu povo.


Valorizando o restinho de mata
Entrelaçados com a natureza, replantar mudas nativas é um ato bem-visto na aldeia Mbyá-Guarani – Crédito: Paula Schuster

Debater a questão ambiental com os indígenas não parece ser uma realidade no país, embora eles tenham garantido a manutenção de enormes áreas verdes. Segundo Daniel Munduruku, só o fato deles continuarem resistindo, já faz com que prestem um grande serviço para o Brasil. ”Os indígenas estão gritando há pelo menos 517 anos e muito pouco foram ouvidos”.

Além desta falta de representação citada por Munduruku, Jaime, o cacique Mbyá-Guarani questiona a falta de discussão sobre como valorizar e fortalecer aquilo que ainda há, o “restinho de mata”.

Muitas pessoas aparecem na aldeia em Viamão com o intuito de plantar mudas nativas. O cacique, porém, reitera: antes de se envolver na questão ambiental – algo que é, sim, apreciado por eles -, é necessário que os brancos entendam sua contribuição para a destruição do meio ambiente.

Por fim, segundo ele, os brancos deveriam trabalhar junto dos indígenas, valorizando o conhecimento dos Mbýa  sobre a terra e os seus recursos naturais. “Ambientalistas, pensando bem, somos nós”, sentencia Jaime Vherá Guyrá.

“Os povos indígenas têm uma relação de parentesco com o meio ambiente”, diz Daniel. “Nós entendemos que somos parte do lugar onde moramos e compartilhamos com todos os seres a mesma vitalidade, a mesma energia e as mesmas apreensões. Nos sentimos parte e não donos”, explica Munduruku. Confira a íntegra da entrevista a seguir.

Qual a relação entre povos indígenas e meio ambiente?
MUNDURUKU: Os povos indígenas têm uma relação de parentesco com o meio ambiente. Nós entendemos que somos parte do lugar onde moramos e compartilhamos com todos os seres a mesma vitalidade, a mesma energia e as mesmas apreensões. Nos sentimos parte e não donos. Portanto, construímos uma relação de pertencimento ​que se mostra através dos rituais realizados durante os períodos do ano. Também se manifesta pela crença nos seres encantados, no respeito à memória dos ancestrais e na educação das crianças e jovens.

O escritor indígena Daniel Munduruku, pós-doutor em literatura pela Universidade de São Carlos e autor de 50 livros, conversou com a reportagem do blog de Jornalismo Ambiental da UniRitter sobre o papel dos povos nativos – Crédito: Paula Schuster

É importante a inclusão dos diversos povos indígenas nos debates ambientais? Por quê?
MUNDURUKU: O sistema capitalista não consegue alcançar a visão holística que os povos indígenas desenvolveram ao longo dos milênios de existência. Os indígenas se esforçam muito para entender o modo capitalista de ser. São duas visões que não se adequam, não se encaixam e não têm chance de dar certo. Os povos indígenas têm que participar destes debates porque são resilientes, mas não tenho esperança de que as suas palavras consigam entrar com toda força na mentalidade ambientalista que é alimentada pelo capitalismo. Sustentabilidade é uma palavra criada para amenizar a destruição ambiental e acalmar a ira dos ambientalistas. Grosso modo os capitalistas não irão parar jamais de olhar para o ambiente como um objeto lucrativo; os ambientalistas, por sua vez, não conseguem escapar da noção masoquista que entende o meio ambiente de forma romântica. É um debate desigual demais. O discurso ambiental indígena é profundo demais e os capitalistas não o aceitam, os ambientalistas não compreendem em sua profundidade. Lamentavelmente eu acho essa é uma luta perdida.

São satisfatórias as medidas tomadas ou as representações indígenas nestes debates?
MUNDURUKU: Muitos avanços na área ambiental foram conseguidos graças à atuação dos povos indígenas. Se imaginarmos que apenas o fato desses povos resistirem à degradação ambiental de seus territórios tem sido a garantia da manutenção de áreas enormes, podemos perceber que fazem muito pelo bem do Brasil. Nosso país tem áreas verdes, tem uma configuração ecológica expressiva ainda por conta desta resistência indígena sobretudo. O que quero dizer é que os indígenas estão gritando há pelo menos 517 anos e muito pouco foram ouvidos. O que precisa dizer mais? A gente nunca foi, de fato, ouvido. Por que seremos agora? Manter-nos vivos é nosso grito que ecoa por gerações. O que poderia ser feito para que esta história não se perca é criar um parlamento indígena onde os representantes tivessem o mesmo peso que os outros setores da sociedade. Infelizmente, nossos povos são tratados apenas como estorvo pelos capitalistas e, algumas vezes, também pelos ambientalistas. Isso é perceptível no tipo de organização que existe entre as ONGS que trabalham nesta área. Pergunte quantos indígenas são chamados para os conselhos curadores destas instituições; quantos diretores indígenas elas possuem; quantos técnicos indígenas existem em seus quadros. Talvez os números sejam a melhor resposta para esta questão.

Tendo em vista as particularidades de cada etnia e aldeia, ainda assim é possível traçar uma política pública relacionada ao meio ambiente que possa favorecer a maioria dos povos indígenas?
MUNDURUKU: A diversidade indígena não é um problema, mas solução. Há milhares de anos vivem, convivem, acreditam, interagem, ritualizam com seus lugares de origem. Sabem como cuidar, como se relacionar, como tirar sustento sem degradar. Não consigo imaginar como o poder executivo brasileiro não enxerga isso na hora de desenvolver políticas públicas. O que é necessário é ter boa vontade e saber ouvir de verdade. Infelizmente na atual situação não se pode mais contar com as melhores cabeças pensantes brasileiras para organizarem este tipo de política porque ela está sendo desenvolvida por pessoas ligadas ao agronegócio, aos latifundiários e pelas monoculturas. Essa gente aí não sabe ouvir porque ouvir exige inteligência e isso anda em falta ultimamente. É triste, mas é verdade.

Caso queira acrescentar alguma informação ou tecer um comentário, sinta-se à vontade.
MUNDURUKU: Não gostaria de fazer um discurso negativo sobre a questão ambiental porque vejo que há um esforço concentrado de vários setores da sociedade preocupados com o tema. Reconheço que é preciso avançar em muitos aspectos​ ​dentro do espectro do sistema capitalista. O esforço tem que ser contínuo e permanente para evitar maiores agravamentos na combalida política ambiental brasileira. O que vejo, no entanto, não me torna uma pessoa otimista extremo. A sociedade civil organizada está ferida de morte por conta desse governo ilegítimo que tomou o poder para detonar as questões sociais e ambientais já conquistadas. O povo brasileiro está paralisado como se tivesse sido hipnotizado por uma naja venenosa à espera do golpe fatal. Se isso está acontecendo com os direitos básicos desde o início sem mobilização social capaz de derrubar este desgoverno, imagine o que acontecerá com os temas transversais? Lamentável.

______________
Agradecimentos especiais ao Biólogo e Coordenador dos Povos Indígenas da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social de Porto Alegre, Guilherme Fuhr, por ter nos orientado na busca de um tema envolvendo os povos indígenas.

Jornalismo Ambiental

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