Manifesto sobre o potencial das periferias do mundo

‘Carta da Maré’, elaborada após encontro de representantes de 15 países, destaca cooperação entre vizinhos e familiares e o protagonismo feminino

Juliana Domingos de Lima 29 Mar 2017
As periferias do mundo estão se unindo. Elas formam hoje uma rede internacional que produz conhecimento de alto nível, propõem a formação acadêmica para combater estigmas e lançam seu manifesto de intenções — a “Carta da Maré”. O documento é parte do saldo de um encontro internacional que discutiu o papel das periferias e o lugar delas nas grandes cidades do mundo. O evento aconteceu em 16 e 17 de março, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O lugar tem uma simbologia especial no imaginário carioca e do Brasil — e é normalmente associado à violência. A comunidade da Maré tem cerca de 140 mil habitantes e foi um dos maiores focos de ações policiais no Rio durante as Olimpíadas. O documento busca contrariar uma visão reducionista e negativa a respeito de quem vive nas regiões mais pobres das cidades. Seu conteúdo reúne, além disso, os desafios comuns enfrentados por periferias ao redor do mundo — como desemprego e violência — e os pontos fortes desses territórios. O objetivo da “Carta da Maré” é lançar luz sobre as potencialidades das periferias do mundo todo. O documento destaca a intensa cooperação entre vizinhos e familiares que já existe nas periferias como uma ferramenta poderosa de construção política. Reconhece, também, o protagonismo feminino nas comunidades e defende a intensificação disso. Cita ainda a inventividade da população jovem, alvo preferencial da violência e estigmatização, como uma das mais eficientes ferramentas à disposição das periferias. O que foi o seminário Com a participação de intelectuais, organizações, ativistas e acadêmicos de universidades de 15 países — como Brasil, EUA, México, Colômbia, Cabo Verde, Portugal, Inglaterra, Itália e Índia —, o primeiro Seminário Internacional de Periferias foi uma iniciativa do Observatório de Favelas, organização da sociedade civil que promove pesquisas voltadas a proposições políticas sobre favelas e fenômenos urbanos, e do Instituto João e Maria Aleixo, projeto da Rede de Desenvolvimento da Maré. Outro resultado do evento é a formação de uma rede internacional pelas entidades que atuam nas periferias de todo o mundo, incentivando a troca de dados para criar ações e políticas públicas, além da realização de pesquisas conjuntas, intercâmbios na formação de jovens e o fortalecimento na busca de formas de financiar essas pesquisas e ações. A criação de um mestrado e doutorado internacionais para jovens que moram nas periferias é um dos objetivos no horizonte da rede, segundo Jorge Barbosa, coordenador do seminário e da organização Observatório de Favelas. Como resultado, a formação de intelectuais que pensem o mundo a partir das periferias e levem a agenda de seus bairros de origem adiante, segundo Barbosa, fará com que propostas sejam construídas. “Há muita denúncia [sobre a situação das periferias], mas poucas proposições de superação”, diz, em entrevista ao Nexo. O que há na carta O principal foco do documento são as representações negativas das periferias e de seus moradores, que os autores pretendem refutar. Essas representações, segundo a carta, prejudicam a compreensão da diversidade existente nesses territórios. E, assim, dificultam a elaboração de políticas e ações para a superação de problemas. Diz a carta: “A definição de periferia não deve ser construída em torno do que ela não possuiria em relação ao modelo dominante na dinâmica socioterritorial ou da distância física em relação a um centro hegemônico. Ela deve ser reconhecida pelo conjunto de práticas cotidianas que materializam uma organização genuína do tecido social com suas potências inventivas, formas diferenciadas de ocupação do espaço e arranjos comunicativos contra-hegemônicos e próprios de cada território” Apesar de reforçar positivamente a imagem das periferias, a carta também identifica fragilidades e situações precárias comuns às periferias do mundo. Por exemplo, os índices elevados de desemprego, subemprego e informalidade nas relações de trabalho; a exposição à violência (inclusive com alta incidência de violência letal contra jovens negros), atribuída, em parte, à estratégia de guerra às drogas do Estado; e a desigualdade de gênero e violações de direitos da população LGBT, que culmina em situações de violência contra as mulheres e homicídios de pessoas trans. Em contrapartida, ressalta as “potências” das comunidades e bairros periféricos: o protagonismo feminino na propagação de saberes e ações educativas, políticas, culturais e econômicas; a presença de modelos participativos, movimentos e organizações sociais; e os vínculos de solidariedade das relações de vizinhança e parentesco, mais fortes do que em outras partes da cidade. Segundo Jorge Barbosa, para que essas potências sejam aproveitadas, é preciso que o Estado reconheça esses territórios e as pessoas que o habitam como cidadãos plenos, por meio de políticas de geração de renda e fornecimento de serviços públicos. O reconhecimento, pelo conjunto da cidade, de que as periferias pertencem a ela, também importa. Além disso, elas precisam estar representadas na política. “Em cem anos, a Maré teve apenas um vereador eleito que foi morador. É preciso criar novos fóruns onde esses territórios apareçam com as suas agendas”, diz.

NEXO

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