Economistas discutem limites do crescimento e sustentabilidade

Público durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente
                    Público durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente

 

Um baixo nível de crescimento econômico ou um crescimento zero seriam saídas para a redução do impacto da ação do homem sobre a natureza? Os parâmetros atuais de avaliação do desempenho da economia retratam com acuidade os bônus e ônus proporcionados pelo modelo capitalista adotado na maior parte do mundo? Essas são algumas das questões levantadas nesta segunda-feira (27) durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente, Crescimento Zero e Desenvolvimento Sustentável, que reuniu especialistas das ciências econômicas, sociais e ambientais no Centro de Convenções da Unicamp.

Desde o início dos anos 1970 a humanidade utiliza anualmente mais recursos do que o planeta é capaz de regenerar, segundo o conceito de pegada ecológica. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a população mundial alcance a marca de 9,7 bilhões de pessoas até 2050, exercendo um impacto ainda maior sobre esse déficit. Os dados foram apresentados pelo economista Junior Garcia, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que abordou o tema macroeconomia ecológica e desenvolvimento sustentável.

Garcia destacou que os benefícios do desenvolvimento tecnológico das últimas décadas não foram suficientes para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa, a elevação do padrão de consumo e outras consequências da ação humana no ambiente. “Nós perdemos os ganhos de eficiência pelo efeito escala.”

Segundo o docente da UFPR, “não adianta só a tecnologia, porque até agora ela não se mostrou como uma contribuição de fato ao problema”. Como pesquisador, ele propõe a criação de instrumentos teóricos e metodológicos para o debate de crescimento zero ou baixo crescimento na macroeconomia, de maneira a considerar os limites desse crescimento, sob a ótica ambiental, e os benefícios qualitativos dessa expansão. “Senão, ficaremos discutindo crescimento sem de fato uma transformação social.”

Mesa de abertura do Fórum
Mesa de abertura do Fórum

Um colapso ambiental está no horizonte e já podemos perceber alguns sinais dele, como as crescentes taxas de concentrações atmosféricas de CO2 e a elevação nas temperaturas médias globais.  Essa afirmação é do professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp Luiz Marques. Segundo ele, “as chances de desviarmos da atual trajetória de colapso socioambiental tornaram-se agora nulas ou tendem rapidamente a zero”, pois, “cessando a causa não se cessa o efeito”.

O professor de economia da USP Ricardo Abramovay concorda com Marques e acrescenta que “não há dúvida de que as sociedades contemporâneas estão fazendo muito menos do que poderiam e, sobretudo, do que deveriam para enfrentar os grandes problemas socioambientais”. Para ele, a qualidade do crescimento é o que deveria ser importante, e a tecnologia deve estar a serviço das necessidades humanas e do meio ambiente. No entanto, ele estima que existam forças sociais aliadas à tecnologia capazes de mudar o curso das coisas.

Mais otimista, José Eli da Veiga, professor de economia da USP, questionou critérios metodológicos do cálculo da pegada ambiental e defendeu que existe a necessidade de se reavaliar os reais riscos ambientais. “Não existem evidências científicas, a meu ver, que dizem que o colapso ambiental esteja no horizonte”. Para ele, é possível o capitalismo ser sustentável, contudo, não por meio do crescimento zero, uma “ideia muito problemática e infeliz, que não deveria ser seguida”. Veiga defende que o desempenho da economia não deveria ser medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), que calcula a produção de um país, mas sim baseado no consumo domiciliar.

O economista Ademar Ribeiro Romeiro, um dos organizadores do evento e professor do Instituto de Economia da Unicamp, foi enfático ao defender que há um limite para o uso dos recursos naturais, mas ainda não se sabe qual é. Sobre o excessivo uso de combustíveis fósseis, o professor do IE apontou sua importância como uma das fontes de pressão antrópica. Para Romeiro, é necessário aumentar a eficiência ecológica, ou seja, produzir a mesma coisa com menos recursos e menos impactos. “Vai ser possível aliviar consideravelmente o impacto antrópico com essas tecnologias.” Capitalismo ou não, para o professor não importa o nome do sistema e sim o processo.

Um dos pesquisadores interessados em avaliar os impactos do crescimento reduzido é Peter Victor, professor de Estudos Ambientais da York University. Victor – que participou do evento direto do Canadá, por meio de teleconferência – apresentou estudos sobre os efeitos que o baixo crescimento exerceria na economia canadense. Empregando uma ferramenta de modelagem baseada na dinâmica de sistemas, ele mostrou que é possível combinar pleno emprego, eliminação da pobreza e proteção do ambiente em uma situação de baixo crescimento em um país desenvolvido.

O Fórum Capitalismo e Meio Ambiente, Crescimento Zero e Desenvolvimento Sustentável foi realizado pelo Fórum Pensamento Estratégico (Penses) da Unicamp. O Penses é um espaço acadêmico, vinculado ao Gabinete do Reitor, responsável por promover discussões que contribuam para a formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da sociedade em todos seus aspectos.

Publicado no Portal da Unicamp: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2017/03/28/economistas-discutem-limites-do-crescimento-e-sustentabilidade

Fotos: Antoninho Perri; Edição de imagem: André Vieira

GEMAECO

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