Comer com os deuses – a alimentação na religião do Candomblé

Para as religiões, o alimento é um forte instrumento ideológico e cultural

Comer é se relacionar. Na maioria das religiões existem regras quanto aos hábitos alimentares dos adeptos, sobre o que comer, o que não comer, quando, onde e como comer. Ser judeu é não comer carne de porco, ser hinduísta é ser vegetariano. Em umas, como no Cristianismo, há o caráter penitenciário de não comer carne em um determinado período do ano; em outras, o alimento tem uma relação direta com o plano etéreo, ou seja, com os espíritos que representam os valores da respectiva crença – como no Candomblé.

Os alimentos sagrados

“A prática do Candomblé é toda baseada em comidas”, afirma Janaína Leite de Azevedo, 32 anos, mestranda na UNESP Bauru e autora de seis livros sobre Umbanda e Candomblé. “O alimento é a base do ritual, da oferenda que fazemos aos orixás e outras entidades com as coisas que nós comemos”, explica. Nos templos e terreiros de Candomblé existe uma rica gama de receitas, muito relacionadas à gastronomia brasileira, como o prato Acarajé, que nos rituais é uma oferenda para Iansã.

Janaína explica que o alimento é uma forma material que contém axé, então nos cultos come-se para transmitir o axé às entidades às quais se reza – orixás e espíritos ancestrais (ou Egúnún, espírito que vivenciou a morte). “A palavra axé significa tanto força vital, a que te mantem nesse plano, como comida, alimento”, conta Janaína. Assim, os ingredientes são o principal elemento do culto, responsáveis por reforçar o axé do praticante tanto como o da entidade, para que aumente seu poder e sua vontade.

 

Janaína Leite de Azevedo, 32, dá oficina de Comida de Santo (Foto: Monique Nascimento)

 

Segundo a mestranda, “são três tipos de alimentos. Chamamos de comida seca o que é preparado com farinhas, grãos, frutas e temperos. Tem as bebidas, em especial o otim, que é como chamamos o álcool; e as carnes de animais”. Contudo, o segundo fator mais importante é o modo de preparo, o preceito. Cada entidade tem o seu gosto e os deuses são finos gourmets que não apreciam qualquer coisa. “Tudo se relaciona com a intenção da sua reza e à entidade que você vai fazer a oferta”, ou seja, específicos pratos com específicos ingredientes para cada divindade. “A comida para Exu é feita com farinha que vem da terra e com alimentos quentes, porque Exu mexe com materialidade, sexualidade, uma energia quente. Para Oxalá, que é um extremo oposto, é um orixá de serenidade, então você serve canjica fria, já que ele mexe com calma, paz, plenitude”.

Entretanto, essa relação e o significado que cada ingrediente possuí, muda de região para região. Na África o panteão de orixás é muito mais extenso e diversificado (são mais de 200 entidades cultuadas) porque cada etnia tem seus orixás e deuses próprios, relacionados às suas particularidades, mas há uma forte aproximação entre elas devido à migração das etnias e a forma oral de transmissão dessa cultura. No Brasil, ao passo que chegaram diferentes etnias africanas foram surgindo novas formas de culto que utilizavam diferentes esquemas de alimentos e modos de preparo.

 

Comidas feitas numa festa na casa de Janaína (Foto: Monique Nascimento)

Comida feita numa festa na casa de Janaína (Foto: Monique Nascimento)

 

Questão de identidade

Para entender melhor essa história, voltemos aos nossos tempos de colônia, no século XVI, bem quando Catarina de Áustria autorizou o tráfico de escravos para o Brasil. Os europeus dominaram o tráfico de escravos na África e, inicialmente, trouxeram negros de duas etnias de regiões, costumes e festas distintas: os bantos e os sudaneses. A fim de apaziguar revoltas, foram miscigenados e distribuídos pelo Brasil inteiro. A princípio foram alvo dos jesuítas, o que quebrou com a identidade religiosa deles. Os escravos, negros e índios, longe da terra-natal, de suas famílias e sua cultura, submetidos a extremos esforços físicos diariamente, quando tinham tempo livre se reuniam e trocavam experiências, conhecimentos que traziam de seus lugares de origem.

Assim, o Candomblé é uma das primeiras formas de organização negra no Brasil, em irmandades, mas não pode ser considerada uma religião brasileira, como a Umbanda. O Candomblé é, em essência, a resistência dos africanos escravizados no Brasil. A religião, que é uma mistura de religiões africanas e indígenas com a catequização dos jesuítas, foi a responsável por restabelecer aos negros uma ligação com sua terra natal. Na liberdade para manifestarem suas crenças, dançarem e festejarem pelos deuses, foi onde apoiaram a identidade do povo negro e da nova população miscigenada que surgia, recuperando o fator da sobrevivência de uma cultura: os laços familiares.

Por ter o caráter de resistência, deve-se relembrar que o Candomblé e outras religiões africanas sofreram forte repressão, tanto da sociedade civil como autoridades políticas. De forma mais atroz do que acontece atualmente, a repressão à população negra nos tempos coloniais consagrou o preconceito que existe com as religiões africanas. Atualmente, os adeptos do Candomblé possuem mínima representação política, o que muitas vezes cria impasses quando reivindicam seus direitos por processos judiciais. “A verdade é que é muito difícil abrir um processo por intolerância religiosa e esses crimes ainda são tratados como crimes comuns”, explica Janaína, quee continua “você abre o processo por agressão, mas você não entrou na briga por agressão, entrou pra defender a sua identidade, e dessa forma que ela é tratada, ela é dizimada”.

Repórter Unesp

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