O mundo a um passo da Operação Noé

Necessitamos da consciência de que a biosfera terrestre é e será nosso único lar e de que precisamos agir consequentemente.

Jorge Riechmann *, para Nodal

Imagine você qualquer atividade humana, o plano de vida que gostaria de desenvolver no futuro – a você mesmo ou aos seus seres mais próximos. Logo, pergunte a si mesmo: haverá condições de estabilidade climática e fornecimento adequado de energia e materiais para poder levar adiante esses projetos? Pois bem, seja lá o que for o que você tenha pensado – com algumas exceções pouco desejáveis, como “se tornar o Senhor da Guerra numa região de violência endêmica” – a resposta, com certeza científica – na medida em que a ciência proporciona certezas – é NÃO.

Em 2015, pela primeira vez, a temperatura média da superfície da Terra registrou um nível um grau centígrado superior à da época pré-industrial. Em 2016, superamos as 400 partículas por milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera (descontando as variações estacionais) , quando o limite seguro, como se sabe, está em torno de 350 ppm. Antes, em 2014, tivemos o primeiro ano de toda a era industrial, no qual a disponibilidade de energia primária per capita diminuiu, comparado ao ano anterior – com exceção dos choques exógenos do petróleo, como o de 1973-74. No decênio de 2030 – ou talvez antes –, chegaremos o zênite conjunto de todas as fontes energéticas não renováveis.

Estas duas dinâmicas – aquecimento climático e escassez crescente de energia e materiais, num contexto de rápido empobrecimento da biosfera – já estão determinando o destino dos seres humanos no Século XXI, e vão fazê-lo de forma muito mais intensa – por isso eu venho, há tempos, chamando este de o Século da Grande Prova. Nosso futuro é “apocalíptico”, segundo informes de cientistas da NASA, como James Hansen. Não haverá transições socioecológicas razoáveis: perdemos a oportunidade disso nos Anos 70 do Século XX. Rumamos em direção ao colapso catastrófico das sociedades industriais.

Efetivamente, este colapso poderia ser evitado se houvéssemos atendido aos apelos das boas análises que se realizaram nos Anos 70, começando pelo estudo “Os Limites do Crescimento”, de 1972, e se os processos de aprendizagem coletiva, que estavam em marcha nas sociedades industriais já naqueles Anos 70, tivessem persistido e alcançado mais resultados. Em vez disso, interrompemos aquela aprendizagem sobre a nossa interdependência e ecodependência nos Anos 80, com a ascensão da versão do capitalismo que chamamos de “neoliberal”, cujo resultado foi a aceleração do processo de dilapidação dos recursos do planeta. Se tivéssemos continuado pelo caminho da conscientização, talvez seria possível construir sociedades industriais mais sustentáveis, através de transições graduais, buscando um menor crescimento demográfico, um uso muito mais eficiente dos materiais e da energia, uma socialização paulatina dos meios de produção, estratégias de biomimética, em um grau crescente de economias “homeostáticas” – minha leitura pessoal da expressão inglesa steady-state economy, muitas vezes traduzida como “economia de Estado estacionário”.

Por enquanto, as alternativas são muito piores. As teorias moderadas, como a do desenvolvimento sustentável, ou a do crescimento verde, ou a da prosperidade sem crescimento, não são muito confiáveis – embora as razões sejam distintas para cada caso. Seguimos efetivamente na direção dos colapsos das sociedades industriais, que ocorrerão ao longo do Século XXI – a não ser que sejamos capazes de realizar transformações eco sociais revolucionárias a curtíssimo prazo. Tudo indica que estamos já nos acréscimos dessa partida, e que as soluções menos traumáticas já não são mais possíveis.

Na apresentação do blog do grupo de investigação que eu coordeno, escrevemos que “a população humana está a ponto de chegar à cifra de oito bilhões, e continua estando organizada em sistemas econômicos expansivos, que impulsam a dinâmica cega da acumulação de capital, o que está chocando contra os limites biofísicos da Terra. Nos encontramos numa situação de emergência planetária, que é muito mais eloquente que os limites que podemos impor ao crescimento. Não há precedentes históricos, nem para a situação na qual nos encontramos – uma atmosfera com mais de 400 ppm de dióxido de carbono, um exemplo do tipo de hecatombe da biodiversidade que estamos causando –, nem para o tipo de transição socioecológica que seria necessária para evitar o pior, e por isso as perspectivas de colapso se incrementam.

Sabemos que o crescimento material não pode continuar indefinidamente numa biosfera finita – e de fato já alcançamos o limite do crescimento, evocando novamente o título do importante relatório do Clube de Roma, em 1972. Porém, toda a nossa vida socioeconômica e a ideologia dominante se organizam em torno da aberrante suposição contrária. Como escreveu o biólogo estadunidense Barry Commoner, em 1971: “a civilização humana precisa de uma série de processos ciclicamente dependentes entre si, a maior parte deles (população, ciência e tecnologia, produção econômica, etc) apresenta uma tendência inerente a crescer, com uma só excepção: os recursos naturais, insubstituíveis e absolutamente essenciais. É inevitável um choque entre a propensão a crescer dos ciclos que dependem do homem e os severos limites do setor natural. Está claro que se a atividade humana no mundo tem que conservar sua relação harmônica com todo o sistema global, a espécie terá que se acomodar às exigências do setor natural (ou seja, a ecosfera), para que possa sobreviver.

Para enfrentar essas urgências, como o zênite do petróleo e o aquecimento global, temos que pensar em termos de uma contração da emergência, mais que de uma “aterrizagem suave”. É evidente que as implicações desta situação para as questões de justiça social, justiça de gênero, justiça intergeracional, justiça ambiental e justiça interespécies são enormes.

Hoje, já não bastam as medidas adicionais, ou graduais, relativamente indolores, que talvez tivessem sido efetivas se fossem implantadas há dois ou três décadas atrás – me refiro a iniciativas como a dos impostos ao carbono, que ainda assim nós continuamos demandando. Mas necessitamos também de mudanças estruturais bastante profundas, uma guinada de grandes proporções, para impedir que o veículo civilizatório onde viajamos siga em direção ao abismo, que já está bem próximo. Para que entendamos a dimensão da mudança revolucionária que se faz necessária, basta dizer que os países chamados “desenvolvidos” teriam que começar a reduzir imediatamente as suas emissões de gás do efeito estufa, num ritmo próximo a um inconcebível (para a lógica capitalista moderna) 10% anual, e completar a descarbonização de suas economias no máximo em três ou quatro décadas. Além disso, os grandes países “emergentes” também teriam que seguir por esse caminho pouco depois… Logo, tanto o Norte quanto o Sul deverão abandonar o extrativismo em tempo recorde, pois ao menos 4/5 das reservas ainda existentes de combustíveis fósseis devem ficar sob a terra – se é que queremos ter alguma opção de respeitar o limite de segurança de dois graus centígrados de incremento sobre as temperaturas pré-industriais.

Num mundo marcado pela onipresença dos rendimentos decrescentes (um mundo entrópico) e pela interdependência e ecodependência, associadas aos fenômenos de complexidade (um mundo de sistemas complexos adaptados), uma ética da autocontenção verdadeiramente assumida (a autolimitação como forma de permitir a existência do outro), junto com políticas de justiça global (e intergeracional, e trans específica…), poderiam moldar um sistema capaz de tornar viáveis as comunidades humanas do futuro. Porém, devemos nos perguntar: dispomos dos recursos políticos e culturais necessários para semelhante transformação revolucionária sem precedentes, e dentro dos estritos prazos requeridos?

Leitores e leitoras, companheiros e companheiras: estamos em meio a um naufrágio civilizatório. Devemos organizar o salvamento – não só das pessoas como também das ideias e dos valores. Nosso principal desafio é manter o nível de civilização que conseguimos conformar, aos trancos e barrancos, durante o Século XX (baseado na democracia, direitos humanos, seguridade social com saúde universal, etc) com um consumo de recursos naturais reduzido drasticamente (a uma décima parte do nível atual, se pensamos nas sociedades prósperas deste nosso mundo vergonhosamente desigual). O sociólogo alemão Harald Welzer chama essa tendência de “modernidade decrescente”, ou minguante, ou contrativa (eine reduktive moderne, uma reação à “modernidade expansiva” que marcou os últimos cinco séculos). Eu a chamo de eco socialismo descalço.

Nas origens da modernidade, a nova mentalidade, associada com a revolução tecnocientífica, “suscitou um grande interesse pelo espaço, o tempo e o movimento no seio de um cenário cósmico mais amplo, e não pelo lugar no qual vivem realmente os organismos, em seu entorno terrenal, em contato com outros mecanismos, tentando desenvolver suas próprias potencialidades vitais. A rotação da Terra, a majestosa trajetória geométrica dos planetas, o oscilar do pêndulo, a curva descrita pelos projéteis, os movimentos precisos do relógio, o girar das hélices do moinho, o deslocamento acelerado de naves e veículos terrestres… tudo isso passou a ser o foco de atenção, por direito próprio – a partir do Século XVI. A velocidade reduz o tempo, o tempo é ouro, o ouro é poder. Cada vez mais longe e cada vez mais rápidos são os lemas que se identificariam com o progresso humano”.

Hoje necessitamos, sobretudo, da consciência de que a biosfera terrestre é e será nosso único lar, e atuar consequentemente. Isso nós podemos chamar de “Operação Noé” – porque essa mesma biosfera está sob a ameaça de uma radical degradação, devido ao tipo de “progresso” que temos impulsado ao longo dos cinco últimos séculos, e sobretudo a partir da segunda metade do Século XX. Não é tempo de ceder a fantasias futuristas, como a de terraformar Marte, e sim de construir “arcas de Noé” em nosso próprio planeta, para resistir às novas tormentas que virão.

* Jorge Riechmann é um acadêmico e ambientalista espanhol, membro do Departamento de Filosofia da Universidade Autônoma de Madri.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior

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2 comentários sobre “O mundo a um passo da Operação Noé

  1. Eu não quero assuntos que não interessam para as minhas tarefas fora da temática especial de meio ambiente e somente da flora brasileira. em especial de cerrado… se isso for possível adoraria receber algo mais seleto; aí eu compartilharia com certeza esse site… gostei…

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