O vício do crescimento

Eduardo Sejanes Cezimbra

“O homem ocidental não acredita em coisa alguma, exceto no fato de que, em breve, poderá comprar um televisor de alta definição.” (Castoriadis,2010)

Serge Latouche nos fala dos ‘viciados em crescimento’. De fato, nossas sociedades estão anestesiadas pelas drogas, sejam drogas lícitas ou ilícitas ou ‘drogas virtuais’, consumidas ininterruptamente em todo e qualquer lugar.

Alguns estudiosos apontam o gravíssimo problema sem apontarem ‘tratamentos coletivos’ para essa descomunal adicção consumista, que Latouche chamou de ‘viciados em crescimento’.

Sabemos que quando o tamanho de um problema é gigantesco os intelectuais tendem a abandoná-lo (exemplos: a escravização de africanos, a ‘santa inquisição’, o patriarcado, etc).

Felizmente, esse não é o caso dos organizadores do oportuníssimo livro recém-lançado no Brasil pela Tomo Editorial: Decrescimento: vocabulário para um novo mundo, organizado por acadêmicos europeus que enfrentam corajosamente o mito hegemônico ocidental do ‘progresso’ e do ‘crescimento’.

O decrescimento, , nesse caso, é um ‘despensar’ o que é dado como definitivo e irrevogável.

Confronta a atual despolitização do debate sobre as decisões políticas (por paradoxal que possa parecer) através de uma repolitização da ecologia e do ambientalismo.

Do que estão falando afinal, os autores do livro em tela? De um novo vocabulário para uma ‘nova era’ ou novo mundo já que “a linguagem em uso é indaquada para dizer o que precisa ser dito”.

O pensamento ‘unidirecional’ do crescimento é um grande problema justamente por ser hegemônico e os autores convidadados conseguem traçar várias correntes contra-hegemônicas, entre as quais destaco o antiutilitarismo, a bioeconomia, correntes do ambientalismo e a ecologia política, entre outras.

Dépense, a palavra francesa para ‘despesa’ é um verbete do novo vocabulário que muito acrescenta para a formação de um novo imaginário político, econômico e social.

Há na categoria ‘dépense’ um questionamento bem fundamentado ao dogma da ‘austeridade’ nas contas públicas para alavancar o ‘crescimento’.

Recorro a Cornelius Castoriadis, citado por Serge Latouche, para encerrar essa breve recomendação de leitura que diz: “ninguém nasce cidadão. E, como alguém se torna cidadão? Aprendendo a sê-lo, em primeiro lugar, olhando a cidade em que vivemos. E, certamente, não assistindo à TV de hoje.”

Enfim, um livro de consulta – e de cabeceira- para quem pensa e quer ficar livre do ‘emburrecimeto cívico’.

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3 comentários sobre “O vício do crescimento

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