O crescimento econômico não é capaz de sustentar a felicidade que promete por meio do aumento da renda

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“O crescimento econômico não é capaz de sustentar a felicidade que promete por meio do aumento da renda”. Quem defende a ideia é Giacomo D’Alisa, italiano, pesquisador da Universidade de Roma La Sapienza e organizador da coletânea de artigos intitulada Decrescimento: vocabulário para um novo mundo (Tomo Editorial, 2016). No domingo, dia 13 de novembro, ele participou de um painel na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre para apresentar a tese do decrescimento – termo surgido na década de 1970 que propõe uma nova relação das sociedades com o consumo, a produção e os recursos naturais. Segundo a teoria, o decrescimento oferece alternativas econômicas, sociais e políticas que colocam o bem-viver e as relações entre as pessoas sob o protagonismo ocupado hoje por um modelo de crescimento permanente e hegemônico imposto pelo capitalismo. Na conversa abaixo, realizada na Praça de Alimentação da Feira do Livro de Porto Alegre, Giacomo explica de que forma uma sociedade contemporânea poderia tornar-se decrescentista e traça um diagnóstico do momento do mundo: “Donald Trump é a expressão de uma forma autoritária de sociedade que não funciona para todos, uma sociedade de privilegiados”.

Boa leitura!

De que forma uma sociedade de economia capitalista pode converter-se para uma economia de decrescimento?
Não é possível uma transição ao decrescimento a partir de uma sociedade capitalista porque esta tem em sua raiz a necessidade de crescer e expandir a acumulação. O sistema econômico capitalista está fundamentado numa ideia que para a vida ser melhor temos que ter mais, e é fundamentado na pessoa como um indivíduo e não em sua relação com o meio. O decrescimento aposta numa ideia de bem estar que vai contra o individualismo, que incentiva a relação da pessoa com seu entorno social e ambiental. O importante, numa sociedade decrescentista, é a construção de relações saudáveis. Essa sociedade não existe dentro de uma sociedade capitalista.

O decrescimento pode funcionar em países com economias tão distintas, como Brasil, China ou Estados Unidos?
Com o tempo, foi construído um imaginário crescentista no qual ainda continuamos inseridos. O decrescimento vai se realizar de formas diferentes nesses países porque depende da cultura e dos valores da sociedade. A transformação ocorrerá com o estabelecimento de estratégias e de resultados. Estamos em um mundo pluriverso, em que culturas se relacionam de formas diferentes. Sendo assim, não há só um caminho. O decrescimento legitima a diversidade cultural, aquela que o capitalismo tenta esconder, brutalizar, escravizar, aniquilar. No mundo pluriverso do decrescimento, há legitimidade das culturas étnicas e indígenas. Não há espaço para, por exemplo, a cultura da xenofobia. Essa pluralidade dará resultados diferentes em regiões diferentes. A legitimação do outro e o respeito à natureza provém de uma base de valores que fundam o caminho ao decrescimento.

O decrescimento seria, então, o sistema do futuro?
Hoje em dia, muitas economias avançadas estão fazendo experiências que poderiam ser consideradas de decrescimento. Isso não é muito percebido porque alguns podem ver o decrescimento como recessão. No momento, a pressão está crescendo pela manutenção de uma economia patriarcal. Isso significa que o futuro será de repressão e de culturas que defendem seu próprio território que, numa forma fascista, oprime o outro, de uma recessão econômica que reprime. Outra possibilidade de futuro é uma aposta democrática e voluntária de reconhecimento dos recursos naturais, sejam eles humanos ou não-humanos. A pressão que impomos à natureza pode nos levar a um caminho ecofascista. Sem mexermos no sistema capitalista patriarcal, não há transição possível. Para isso, é preciso uma interferência no nível íntimo, social e político. Por outro lado, muitos países têm construído muros: Estados Unidos, Israel, Polônia, até a Noruega, na fronteira com a Rússia. Esses muros são a representação do ecofascismo do qual falei porque eles impedem que as pessoas entrem, mas depois vão permitir que  outras pessoas sejam mandadas para fora.

Como a eleição de Donald Trump pode afetar a perspectiva da teoria do decrescimento para os próximos anos?
Nas últimas décadas, houve uma forte confiança no mercado, no capitalismo que nos permitira realizar tudo. Agora, ressurge a ideia de que nem tudo é possível para todos. Donald Trump realiza um governo que se fecha: vamos ser apenas americanos para sermos melhores. Ele é a expressão de uma forma autoritária de sociedade que não funciona para todos, uma sociedade de privilegiados. Os Estados Unidos de Tump reivindicam  a esperança de que o sonho americano se realize apenas para os americanos. O Brexit (a saída do Reino Unido do bloco econômico e político formado pela União Europeia, referendada pela população britânica) é outro exemplo dessa sociedade autoritária. O Brasil, a Polônia e a Rússia de Putin também.  Estamos vendo a construção de elitismos oligárquicos locais que podem associar-se entre si e fazer acordos individuais. Este é o sinal que Trump está dando.

Vitor Diel

Feira do Livro de Porto Alegre

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