Exposição resgata história dos quilombos rurais no Rio Grande do Sul

Eduardo Tavares e Gabriel Dienstmann viajaram mais de 5 mil quilômetros pelo interior do Rio Grande do Sul para registrar o cotidiano da vida dos quilombos rurais no Estado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

O jornalista Eduardo Tavares e o historiador Gabriel Dienstmann uniram esforços para resgatar parte de uma história ainda muito pouco conhecida no Rio Grande do Sul: a dos quilombos rurais. A exposição fotográfica “Quilombos rurais e o gaúcho negro”, inaugurada dia 25 de outubro, no Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, reúne mais de 120 fotos preto e branco, de autoria de Eduardo Tavares, com textos de Gabriel Dienstmann e vídeos com depoimentos de personagens quilombolas de várias regiões do Estado. Esses testemunhos trazem à tona relatos sobre episódios pouco conhecidos da nossa história, como a do líder quilombola Manuel Padeiro que, nos meados do século XIX, formou grupos de resistência contra a escravidão, a cerca de 30 km de Pelotas. Segundo relatos da época, os capitães-do-mato desistiam de caçar os escravos fugitivos quando estes conseguiam chegar à Serra dos Tapes, território onde estava Manuel Padeiro e onde foram criados vários quilombos.

Para construir essa exposição, o jornalista e o historiador percorreram mais de 5 mil quilômetros pelo interior do Rio Grande do Sul, visitando 15 comunidades quilombolas. O objetivo do projeto é dar visibilidade aos quilombos rurais no Estado, valorizando a luta das comunidades negras por melhores condições de vida e contra o preconceito. Após o final da exposição, as fotos, textos e os depoimentos de lideranças quilombolas gravados em vídeo ficarão disponibilizados em um site que também trará informações de trabalhos acadêmicos sobre o tema. O endereço do portal será http://www.quilombosrs.com.br

Em entrevista ao Sul21, Tavares e Dienstmann falam sobre a exposição e destacam as muitas lacunas e ausências que marcam a história dos quilombos rurais e da presença do negro na história do Rio Grande do Sul.

A exposição sobre os quilombos rurais no RS está aberta ao púbico no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sul21: Como nasceu a ideia de fazer esse trabalho sobre os quilombos rurais no Rio Grande do Sul?

Eduardo Tavares: Em 2014, eu fiz uma exposição sobre o gaúcho negro, que foi apresentada no Solar dos Câmara, na Assembleia Legislativa. Esse trabalho foi fruto de um sentimento meu, ao andar pelo interior do Estado e ver a presença do negro nas fazendas, sempre alguém muito habilidoso com as lides do campo. Em geral, não existe a figura do negro na representação imagética da figura gaúcha. Fiquei indignado com isso e fui consultar meu arquivo fotográfico para buscar a prova dessa constatação. E essa prova, a presença do negro, estava no arquivo. O negro não só está presente como é uma figura protagonista do meio rural gaúcho, mas não é representado culturalmente. Não tive apoio nenhum para fazer essa exposição de 2014. Fui eu quem bancou tudo. Na época, eu já queria ir para o interior para fazer um registro dos quilombos rurais, mas não tive condições.

No ano passado, o Gabriel me sugeriu inscrever um projeto no edital Juntos pela Cultura, da Secretaria Estadual da Cultura. No início eu estava meio cético, mas ele insistiu e decidimos fazer.

Gabriel Dienstmann: A presença do negro na história e na cultura gaúcha sempre me chamou a atenção. Como o Eduardo já havia feito uma exposição sobre o tema e planejava ir a campo para fotografar essa presença no interior do Rio Grande do Sul, sentamos para conversar e decidimos fazer um projeto específico sobre os quilombos rurais, algo que pouca gente conhece. Fizemos uma pesquisa para identificar onde estão localizados esses quilombos e quais os mais significativos. O projeto foi selecionado e conseguimos recursos para viajar pelo interior. Nós percorremos cerca de 5 mil quilômetros e visitamos 15 comunidades.

Sul21: Qual é a história dos quilombos rurais no Rio Grande do Sul?

Gabriel Dienstmann: Os primeiros quilombos começaram a surgir logo após a chegada dos primeiros escravos aqui, por volta da metade do século XVIII, para trabalhar nas charqueadas e nas lidas do campo. Em 1780, a chegada de escravos começou a se intensificar, sobretudo na região de Pelotas. Boa parte deles veio direto da África, mas também teve uma parte significativa que veio do Rio de Janeiro que, na época, era a capital do país e principal porto por onde entravam os escravos e havia um grande número de contrabandistas.

Há uma diversidade no processo de formação dos quilombos. Alguns se formaram por fugas de escravos, outros por meio de escravos que conseguiram comprar sua liberdade e outros ainda que ganharam terras de herança de seus antigos senhores. O maior quilombo titulado do Rio Grande do Sul, o da Casca, em Mostardas, foi criado por meio de uma doação testamentária feita em 1824 pela então proprietária da área. O tipo de produção e de relação com a terra também varia bastante. Atualmente, são 169 quilombos no Rio Grande do Sul, entre urbanos e rurais. Deste total, cerca de 80% são quilombos rurais. Há desde comunidades pequenas com apenas cinco famílias até comunidades com 450 famílias, como é a de Morro Alto, em Maquiné, que é a maior do Estado.

Atualmente, são 169 quilombos no Rio Grande do Sul, entre urbanos e rurais. Deste total, cerca de 80% são quilombos rurais. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Eduardo Tavares: Esse quilombo tem uma história complicada. Originalmente, eles herdaram 15 mil hectares numa área que vai de Maquiné a Osório. Hoje, eles pleiteiam a titulação de 4.500 hectares.

Gabriel Dienstmann: No testamento foram concedidos 15 mil hectares, que era o tamanho original da fazenda. Eles receberam esse testamento, mas como a maioria era composta por ex-escravos analfabetos, não conseguiram garantir a titulação dessa terra na época e, ao longo dos anos, foram surgindo fazendas e sítios de lazer nesta área. Hoje, dos 15 mil hectares iniciais aos quais teriam direito, eles estão reivindicando 4.500 hectares para 450 famílias, o que dá dez hectares por família. Não é muita coisa. Hoje há muitos grileiros e conflitos de interesse que estão retardando a definição desse processo.

Eduardo Tavares: A Constituição de 1988 definiu que essas comunidades têm direito à titulação. O governo Fernando Henrique estabeleceu a exigência de um laudo antropológico e outros itens para fazer a titulação. No governo Lula, esse processo de titulação avançou, despertando, por outro lado, a reação da bancada ruralista. O poder da oligarquia rural segue muito forte no país e no Congresso Nacional.

Sul21: E essa resistência tende a ficar ainda mais forte com o governo Temer…

Gabriel Dienstmann: Sim. A luta pela titulação está muito devagar, quase parando. Só há dois quilombos rurais titulados no Rio Grande do Sul e, mesmo assim, é uma titulação parcial: o de Casca, em Mostardas, que tem 1200 hectares para um grupo de 90 famílias; e o de Desmate Menos, em Restinga Seca. Foram os dois únicos que conseguiram titulação neste universo de mais de cem quilombos rurais. O que nós percebemos nos quilombos que visitamos é que, apesar do processo de titulação estar travado, eles conseguiram conquistar muitos avanços através da mobilização quilombola. Foram criadas diversas associações comunitárias que começaram a ter, pela primeira vez, acesso a programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos e Bolsa Família. Todas as crianças estão na escola, há postos de saúde próximos e quase todas as famílias moram em casas de alvenaria. Houve muitos avanços que, nos últimos anos, sofreram certa estagnação que deve piorar mais ainda, depois do golpe.

Exposição também traz vídeos com depoimentos de personagens quilombolas de várias regiões do Estado. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Sul21: Os quilombos rurais têm estruturas de produção própria a exemplo do que ocorre com os assentamentos do MST?

Gabriel Dienstmann: A maioria não tem essa estrutura nem pernas para isso. A maioria das famílias vive em um ou dois hectares, no meio rural, cercadas por propriedades muito maiores. Uma das grandes lutas deles agora é em defesa da agroecologia. Criaram a cooperativa Terra de Quilombos para fazer produção orgânica e garantir acesso ao mercado consumidor. Conseguiram começar a fazer isso por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal, que compra produtos orgânicos para abastecer escolas e hospitais. O Grupo Hospitalar Conceição, por exemplo, estava comprando uma grande quantidade de feijão orgânico, hortaliças e temperos produzidos em quilombos.

Mesmo não possuindo a titulação, quando eles se reconhecem como quilombolas e recebem o certificado de reconhecimento da Fundação Palmares, eles conseguem comprovar a posse da terra, o que já permite acessar uma série de políticas públicas e dar um salto de qualidade de vida muito grande. Agora, o desafio é conseguir avançar na organização de cooperativas e na produção orgânica.

Sul21: Há uma preocupação com o resgate cultural e histórico por parte dessas comunidades?

Eduardo Tavares: Sobre esse tema, nós tínhamos um interesse especial na questão da religiosidade afro. É muito difícil encontrar sinais dessa religiosidade, que foi muito boicotada e reprimida. Conseguimos fotografar uma benzedeira no Alto do Caixão, em Pelotas, e um ialorixá, na Picada das Vassouras, em Caçapava do Sul. A maioria desses quilombos está localizada em lugares afastados, afinal, em muitos casos, eram pontos de fuga para se esconder. Nesta região de Pelotas, os negros saíam das charqueadas, naquela região plana do arroio Pelotas, e fugiam para a Serra. Há uma história muito interessante nesta região e pouco conhecida, a história de um quilombola guerrilheiro que atuou ali por volta da metade do século XIX. O quilombola Manoel Padeiro montou um grupo volante que resistia aos caçadores de escravos fugitivos e atacava algumas fazendas de proprietários de terra. Essa é uma das histórias que precisa ser resgatada, pois é muito rica. Há várias outras.

Sul21

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