Crescimento do PIB não funciona, pelo contrário, destrói

Considere qualquer uma das variáveis críticas ambientais, como
desmatamento, emissões de gases, geração de lixo, descarte de resíduos
sólidos como pilhas, construções desgovernadas, perdas aceleradas de
espécies, perdas de indivíduos de espécies, contaminação do solo, da água,
dos oceanos, enfim, qualquer uma das ameaças ambientais sérias que estamos
enfrentando, qual delas melhorou? Nenhuma e não só não melhoraram como
seguem em deterioração. Isso deveria ser considerado uma evidência que o
crescimento do PIB está por trás de todas essas consequências, mas não, por
uma série de atalhos pretensamente intelectuais e científicos, essa relação
de causa e efeito é simplesmente ignorada.

A forma como é mascarada não passa de elocubração e devaneio, sem
profundidade alguma. Alguns “novos economistas” defendem que pode haver
descolamento entre crescimento do PIB e deterioração ambiental. Pois bem,
segundo essa vertente, é possível com uma “tecnologia apropriada” permitir
o descolamento entre o PIB e o dano ambiental. Casos isolados são trazidos
à tona em defesa dessa tese, embora, de uma forma geral, e principalmente
através das trocas comerciais globais, a observação é que não há
descolamento algum, muito pelo contrário, a resiliência de vários sistemas
importantes da vida na Terra está sendo testada no seu limite e perdida.

Outros avisam que não há nem houve descolamento e os que defendem ainda
rebatem: “mas isso é porque a tecnologia que existe para obter esse
resultado ainda não foi usada ou se foi, não foi usada em escala
significativa para obter esse resultado.” Então, os crentes na tecnologia
se defendem dessa forma: “sim, a situação está pior, mas não porque o
crescimento do PIB é o culpado e sim porque as tecnologias, como energia
nuclear e energia limpa, não estão disseminadas. ” Para estes iluminados
não é o crescimento do PIB o problema, mas o não uso de tecnologia
apropriada. A pergunta que deixam de fazer é a seguinte: “mas se existe
uma tecnologia que permite o descolamento entre o crescimento do PIB sem
afetar o crescimento dos lucros – que é no fundo o principal objetivo desse
sistema – e nem afetar o nível de produção, dada que essa tecnologia é
neutra do ponto de vista de custos, por que então essa tecnologia não está
sendo usada de forma universal?” Que mais evidências do descalabro
ambiental global são necessárias para motivar o uso dessas tecnologias?
Temos duas explicações possíveis, mas não excludentes: (1) essas
tecnologias não são neutras em termos de custos e causam sim redução dos
lucros para manter determinado nível de produção e finalmente, os capitães
desse sistema seriuam forçados a pagar pelas externalidades que causaram na
forma de lucros menores nas suas empresas; e (2) essas tecnologias
simplesmente não existem, não é ainda nem uma questão de se são neutras ou
não para os lucros e a produção.

As duas explicações não são excludentes, porque de fato há algumas
tecnologias capazes de amenizar alguns efeitos sem, contudo, evitar a rota
de colisão da economia com a Terra, porque isso só é possível quando o
objetivo de crescimento num planeta finito for revogado. No entanto, não
existe uma tecnologia gratuita, mesmo que insuficiente para tratar do
problema planetário atual e a questão sempre será como abrir mão do egoísmo
e da ganância na forma de menos lucros, quando a maior parte dos
empresários sempre tenta e consegue reduzir o quanto paga em salários para
seus funcionários.

Na verdade é o modo de produção e o objetivo de crescimento que precisam
ser revistos para embutir leis da física no sistema econômico que só existe
em teoria se essas leis fossem derrubadas. Derrubar leis da física para
manter uma idéia estúpida como o crescimento do PIB é praticamente
impossível e isso só passa despercebido, porque é uma proposição que uma
pequena platéia regida pela ganância e egoísmo gosta de ouvir. Essa
pequena platéia de governos e empresários parecem ignorar todas as
consequências que chegam diariamente aos seus ouvidos, parecem acreditar
que não fazem parte de uma espécie animal vulnerável, ou seja,
enlouqueceram com suas fortunas bilionárias e as destruições incríveis de
ecossistemas que promovem incansavelmente, enquanto mentem em relatórios de
sustentabilidade e recebem prêmios de institutos mais fajutos que suas
idéias equivocadas da realidade.

É muito estranho perceber que há pessoas na Terra que acreditam que a
tecnologia humana seria capaz de revogar a finitude planetária, não apenas
no seu aspecto menos óbvio, que são os sistemas ecológicos de sustentação
da vida na Terra, mas acima de tudo no seu aspecto mais óbvio, que é o
espaço territorial que não aumenta de tamanho. É como se disssessem:
“podemos ter quatro quatrilhões de automóveis na Terra, desde que os mesmos
sejam movidos a hidrogênio e ar.” Ou seja, a questão da ocupação do espaço
material finito que a Terra dispõe para nosso uso é largamente ignorada com
essas idéias. Para dar certo a visão desses “novos economistas” que ainda
defendem o crescimento do PIB, a tecnologia humana teria que ser capaz de
produzir um novo planeta como a Terra e mesmo assim, em pouco tempo, seria
preciso repetir essa proeza. É como Georgescu dizia, os economistas
acreditam firmemente que a produção brota do nada e que vivemos num
verdadeiro Jardim do Éden. Georgescu apontou que o modelo do Robert Solow
cujo resíduo de 80% não explicava o crescimento, ao invés de ser
considerado um erro de especificação matemática, foi chamando
arrogantemente por ele mesmo de resíduo de Solow e avanço tecnológico e
todos engoliram. Todas as revisões da teoria de Solow nos livros de
doutorado de Macroeconomia até hoje, quando tentaram incorporar os recursos
da natureza, não revisaram a sua principal conclusão vigente e mantém até
hoje que “os recursos da natureza são completamente irrelevantes para o
processo econômico.” Essa premissa é fundamental para manter a idiotia e a
litania do crescimento do PIB, ou seja, é impossível essa idéia sem essa
suposição de irrelevância da natgureza. É com essa “sabedoria&quo t; que o mundo
segue na direção de acabar com a vida na Terra e, com isso, sumirão dessa
vez todos os nossos problemas, inclusive a pobreza, que sempre foi um
pretexto evidentemente falso para justificar o crescimento quando era
difícil falar sobre os danos ambientais a ele relacionados.

Hugo Penteado

Foto: Jornal GGN
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