Índios Yanomami (Sanöma) lançam Enciclopédia de Alimentos e aliam conhecimentos tradicionais e científicos

Salaka pö: Peixes, Crustáceos e Moluscos e Ana amopö: Cogumelos são os dois primeiros volumes da Enciclopédia dos Alimentos Yanomami, resultado do trabalho conjunto de pesquisadores sanöma da região de Awaris, Terra Indígena Yanomami, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).

Os livros foram lançados em São Paulo, ontem, com a presença de cinco pesquisadores Sanöma, subgrupo Yanomami que vive na região de Awaris, nas florestas do extremo noroeste de Roraima. Escritas em sanöma e traduzidas para o português, as publicações ajudam a manter viva a língua Yanomami e promovem diálogo entre os conhecimentos dos indígenas sobre alimentos e os conhecimentos científicos.

O material foi produzido a partir da formação de pesquisadores sanöma, realizada por meio de uma parceria entre Hutukara – Associação Yanomami, o Instituto Socioambiental e a Universidade Federal de Minas Gerais, que contou ainda com a participação de várias instituições: o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o Instituto de Micologia de Tottori do Japão, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), o Instituto de Botânica (IBt) e o Instituto Atá.

Sandro Sanuma, um dos pesquisadores que participaram do trabalho, diz que os Yanomami usam mais de 400 espécies para se alimentar. Assim, ele descreveu as publicações: “O livro Ana amopö apresenta cogumelos e a nossa culinária. No livro dos peixes a gente conta como aprendeu a pescar e teve acesso aos equipamentos que usamos para a pesca. Todas as espécies de peixes, moluscos e crustáceos que a gente usa para se alimentar estão ali, e os tabus ligados a eles também”, disse em sua língua mãe traduzida por Moreno Saraiva Martins, antropólogo do ISA, integrante do projeto.

Este especialista destaca a importância do material para o fortalecimento da língua sanöma, ao mesmo tempo em que contribui para o registro e o aprofundamento do conhecimento sobre temas do cotidiano das comunidades locais, incluindo caçadas, pescarias, rituais e roças.

O primeiro livro da Enciclopédia dos Alimentos Yanomami, dedicado aos peixes, crustáceos e moluscos – Salaka pö – apresenta cerca de 20 espécies usadas na alimentação pelos Sanöma da região de Awaris. A publicação conta como eles conheceram as técnicas de pesca, apresenta-as detalhadamente e também as técnicas culinárias, além de informar a existência de tabus alimentares relacionados a cada espécie.

“Alguns ainda guardam esse conhecimento, outros já se esqueceram. Nós, professores sanöma, preocupados com essa situação, nos esforçamos para escrever este livro. Estamos trabalhando para melhorar nossas vidas e fortalecer a nossa língua. Os Sanöma que vivem longe dos sätänapi ainda conseguem tirar seu alimento da floresta e produzi-lo nas roças, mas os indígenas que vivem perto dos sätänapi estão esquecendo como fazer isso. Como estamos cada vez mais perto das coisas dos sätänapi, fizemos este livro”, reflete Resende Maxiba Apiamö, outro pesquisador.

Ana amopö é o segundo livro da Enciclopédia, dedicado aos cogumelos. São apresentadas 15 espécies comestíveis da região da Awaris, na terra dos Yanomami, encontradas principalmente nas roças e nas capoeiras, que nascem quando as roças são abandonadas. Os cogumelos também ocorrem nas florestas da região, mas em menor quantidade. Isso comprova que os cogumelos encontrados nas roças e capoeiras são resultado direto do sistema de manejo agrícola sanöma.

As formas de preparo, listagem das árvores em cujos troncos em decomposição nascem os cogumelos e um quadro detalhado com informações sobre cada espécie completam o livro. “Temos conhecimento pequeno no Brasil sobre cogumelos comestíveis de nossas florestas. É difícil determinar em laboratório se um cogumelo é comestível. Então, a gente se fia muito no conhecimento tradicional”, afirma Moreno. “Os Yanomami são caçadores e coletores. Eles têm agricultura, mas a ênfase maior do conhecimento deles é na coleta de coisas da floresta. Eles têm um conhecimento muito profundo sobre tudo da floresta, sobre aquilo que se pode comer e aquilo que não se pode comer” (assista ao vídeo).

Alex Atala, do Instituto Atá, vê o trabalho como importante contribuinte para a emissão de uma nova mensagem: compreender o que é a Amazônia. “Se dividirmos a floresta em três faixas, na faixa mais ao sul temos desmatamento; a faixa central sofre muita pressão e há uma faixa mais ao norte que é preservada, e que só vai continuar assim se tivermos a população tradicional protegida. Colher cogumelos e colocar na boca é atividade de altíssimo risco. Só a sabedoria ancestral pode nos dar isso”.

Os cogumelos Yanomami estão à venda no box do Instituto Atá, no Mercado de Pinheiros, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, na forma desidratada e em pó, em mix que reúne mais de dez espécies. E a ideia de colocá-los à venda foi dos próprios Yanomami.

O trabalho da Enciclopédia dos Alimentos Yanomami continua. Moreno conta que o próximo volume será dedicado à caça. Os livros, distribuídos durante o lançamento, não serão vendidos, mas em médio prazo versões digitais serão disponibilizadas para os interessados no site do ISA.

Foto: Carlos Hansen

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas Eu Não Sou de Plástico e, em parceria com a SVB, a Segunda Sem Carne. Colaborou com a revista Página 22 da FGV e com a Unisol Brasil. Há 3 anos é coordenadora de comunicação da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.
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