“Nossa luta não é só por democracia, mas por outra civilização”, diz Mujica

“Fomos transformados em uma máquina de consumismo. A acumulação capitalista necessita que compremos, compremos e gastemos e gastemos. Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura”, afirmou o ex-presidente do Uruguai.

Foto: Henry Milleo – https://goo.gl/dVXNmZ

A reportagem é de  Camilla Hoshino, Carolina Goetten e Gibran Mendes, publicada pelo Jornal Brasil de Fato, 27-07-2016.

Para o senador e ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, o atual contexto político do Brasil e da América Latina, com o avanço das forças de direita, não pode ser visto com desânimo. “Nós aprendemos muito mais com as derrotas do que com as vitórias. É preciso levantar e começar de novo”, declarou Mujica durante o Seminário Democracia na América Latina, que reuniu milhares de pessoas nesta quarta-feira (27) em Curitiba.

Segundo o senador, a democracia está em risco no mundo inteiro devido a duas questões centrais: a concentração da massa financeira nas mãos dos ricos e a crescente desigualdade na Terra. “Nunca o homem teve tantos recursos e meios científicos e técnicos para erradicar a fome e a miséria dos povos”, disse o ex-presidente, enfatizando que o grande problema não é ecológico, mas político. “Temos 80 senhores que possuem o mesmo que outros 3 bilhões de habitantes”.

O ex-presidente destacou que, antes de mais nada, é preciso mudar a cultura. “Sem mudar a cultura não muda nada”, sentenciou. Como cultura, entende-se, a mentalidade de vida. Deixar o consumismo de lado, promovendo principalmente a vida e a felicidade humana como centro da sociedade.

Mujica opinou ainda que o crescimento econômico só se justifica se ocorrer para o desenvolvimento da felicidade humana. “Fomos transformados em uma máquina de consumismo. A acumulação capitalista necessita que compremos, compremos e gastemos e gastemos. Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura”, afirmou.

Democracia em foco

Organizado pelo Laboratório de Culturas Digitais, projeto do Setor de Educação da UFPR, o evento ocorreu com o objetivo de fomentar o debate sobre a ameaça aos regimes democráticos na América Latina, a partir do atual contexto de golpe institucional no Brasil.

Sobre esse assunto, na opinião de Pepe Mujica, é necessário pensar um outro modelo de democracia. “A democracia do futuro não pode ser a democracia de gente sob medida, de campanhas e propaganda para satisfação do mercado. Aquela vende um candidato político como se fosse pasta de dente. Se a política é isso estamos fritos”, criticou.

“A democracia é uma luta permanente, não é o conformismo. E o nosso papel é lutar por um mundo melhor. O que vale é a vida”, finalizou.

Convidados

Participaram da mesa, junto com Mujica, a integrante da Rede de Mulheres Negras do Paraná e Secretária de Direitos Humanos da ABGLT, Heliana Hemeterio dos Santos; o Doutor em História pela FFLCH-USP, Gilberto Maringoni; a Mestre em Educação pela UFPR e professora da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA), Lívia Morales; e a pesquisadora na área de políticas educacionais e movimentos sociais da UFPR, Andrea Caldas.

Durante sua exposição, Gilberto Maringoni criticou incisivamente a política de Estado mínimo proposta pelo governo interino de Michel Temer. De acordo com ele, as propostas de cortes orçamentários nos programas sociais representam uma opção política. “É o livre mercado e ele só tem uma alternativa: o ajuste fiscal e reduzir direitos sociais. Não tem saída porque estamos sem dinheiro”, disse ele, reproduzindo o discurso majoritário do atual Governo Federal.

Hemeterio questionou a efetividade da construção democrática em um país no qual, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto. “A democracia latino-americana não inclui o povo negro. Não podemos falar de democracia a partir do nosso umbigo, sem incluir as mulheres negras, as mulheres lésbicas, as mulheres pobres”, avaliou.

A professora Livia Morales, da UNILA, destacou a necessidade de respeitarmos e valorizarmos as diversidades. “A política é o lugar da diferença. Quem gosta de tudo igual ao mesmo tempo é fascista. Precisamos aprender a lidar com as diferenças, conversar com as pessoas”, afirmou.

As falas foram recheadas de palmas e gritos por “fora Temer” e “fora Beto Richa”.

Tecnologia e participação social

Apesar de não ser aberto para perguntas, o seminário utilizou a tecnologia para fomentar o debate. Por meio da ferramenta “Delibera”, construída pelo Laboratório de Culturas Digitais, os participantes puderam enviar perguntar e votar nas mais interessantes.

O esforço de desenvolver ferramentas e metodologias de participação é um dos principais focos do projeto. Segundo o coordenador executivo do Laboratório, João Paulo Mehl, as pessoas precisam se apropriar do conhecimento gerado e também gerar conhecimento. Ele reforça que a tecnologia não dever ser tratada apenas sob o ponto de vista do especialista, mas de todos, desde os povos indígenas, aos programadores, designers e quilombolas.

Nesse sentido, a tecnologia utilizada e desenvolvida pelo Laboratório, por meio dos softwares livres, é aberta para ser revista, aprimorada e replicada por qualquer pessoa. Um dos exemplos de utilização da plataforma “Delibera” se dá no Conselho Nacional de Política Cultural, onde a ferramenta permite dar transparência e elaborar metodologias de decisões coletivas para o aprimoramento e fortalecimento de políticas públicas e programas.

Para Mujica, as tecnologias “não têm moral”. Portanto, caberá aos homens e mulheres da nova geração fazer o bom uso delas. “A evolução tecnológica, gostemos ou não, irá mudar a dinâmica social”, lembrou, afirmando que a interação proporcionada pelos meios digitais promove outro tipo de integração, que pode fazer com que a democracia no futuro seja muito mais desenvolvida do que a atual democracia representativa.

IHU

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5 comentários sobre ““Nossa luta não é só por democracia, mas por outra civilização”, diz Mujica

  1. não saio de casa sou cadeirante , mas,leio muito adoro ler gostei deste site realmente nós,mulheres, temos que ter nosso valor.Pois somos um forte pilar na construção da sociedade,hoje trabalhamos de igual para igual com os homens em cargos compatíveis

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  2. Estou de pleno acordo. Mujica tem credibilidade. Mas os grupos progressistas devem, antes, filtrar seus aliados, dexando de fora os adeptos da corrupçao, os autoritarios e, portanto, inimigos da democracia. Socialismo sem liberdade eh ditadura. Venezuela e ate mesmo o projeto do PT no Brasil sao exemplos. Sou contra a direita, sou socialista, mas o que aconteceu com o PT no Brasil foi provocado pelos seus proprios erros. Eh preciso nao repeti los. Sobretudo a corrupcao e o autoritarismo. Desde 1917, as esquerdas nao evoluiram. Sergio Macedo, jornalista.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Nova cultura sem consumo ??? então seremos pobres e a liderança será hiper rica.. O Fidel Castro é mais rico que a rainha da Inglaterra e fala de Companheiros tem que suportar a pobreza enquanto ele enche o C. de dinheiro.. enfim só cai nesse conto do vigário quem é bobinho e não vê os fatos, fica sonhando com a utopia da iluzão.

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  3. Compartilho muitas da ideias expressadas pelo Mujica, como reduzir o nível de consumismo e de desigualdade social, respeitar a natureza e usar a tecnologia para simplificar o processo democrático. No entanto, não vejo nenhuma proposta vinda da esquerda que não descambe em autoritarismo e descontrole fiscal. O sr. Ex-presidente fala de luta, de contracultura, de avanço de forças de direita (?), mas não propõe uma opção ao livre mercado. Como gerar riqueza sem ampliar o número de pessoas que produzem ou prestem serviços?
    Os demais participantes do seminário tampouco trazem alguma contribuição ao debate: um deles critica a política de Estado mínimo, que seria uma dádiva num país com tantos monopólios estatais. Outro diz que negros e mulheres não participam da democracia na América Latina. Que bombagem é essa? Não se ouve falar de negros ou mulheres sendo impedidos de exercer seus direitos políticos há décadas. Bem, não aqui no Ocidente…
    A professora Lívia Morales diz que quem gosta de tudo igual ao mesmo tempo é fascista. Parece que esqueceu que nos últimos 15 anos (pelo menos) houve uma forte hegemonia da esquerda em toda América Latina. Talvez as pessoas estejam cansadas desse modelo e insatisfeitas com os resultados alcançados.

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  4. Na prática do poder político é que a formação individual das lideranças expõe a sua verdadeira índole e não existe ideologia social, por mais utópica ou pragmática, que possa justificar a corrupção que tem dominado o Brasil a algumas décadas.

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