O câncer como caminho

 

Eis aí a chave do câncer. Não é por acaso que tantos sofrem de câncer em nossa época, e que o fato de combatê-lo por todos os meios obtém tão pouco êxito. O câncer é uma expressão da época moderna e da nossa visão coletiva de mundo. A célula cancerosa não pode simplesmente segurar uma vela para iluminar a cegueira e a miopia da humanidade contemporânea. Em virtude de visarmos apenas a expansão econômica, nós usamos o meio ambiente como fonte alimentar e anfitrião e, atualmente, constatamos surpresos que a morte desse hospedeiro implica a nossa própria morte.De onde as pessoas que se comportam dessa maneira tiram a coragem e a ousadia para se queixarem do câncer? Afinal, ele não passa de um espelho que mostra o nosso comportamento, nossos argumentos e, também, o fim do nosso caminho.

Sentimos em nós como câncer somente aquilo que de fato vivemos. Nossa era é caracterizada pela expansão e pela concretização desconsiderada dos próprios interesses. Na vida política, científica, “religiosa” e privada, as pessoas tentam expandir seus objetivos e interesses sem consideração pelos limites; eles tentam criar por toda parte bases de apoio para seus próprios interesses (metástases), prestigiando unicamente seus ideais e objetivos, e escravizando assim todos os demais em seu próprio benefício (princípio do parasitismo).
Nosso todo racional é igual ao da célula cancerosa. Nossa expansão é tão rápida e bem sucedida que também nós mal podemos enfrentar os problemas de abastecimento. Nossos sistemas de comunicação, embora espalhados pelo mundo inteiro, ainda nos impedem a comunicação com nossos parceiros e vizinhos. Temos facilidades, mas não sabemos o que fazer com elas. Produzimos e destruimos substâncias alimentícias apenas para manipular seus preços. Podemos viajar pelo mundo inteiro, e mesmo assim não nos conhecemos. Nossa filosofia atual só admite um objetivo: crescer e progredir. Trabalhamos, fazemos experiências e pesquisas (contudo para quê?) Em nome do progresso! E qual será o objetivo desse progresso? Ainda mais progresso? A humanidade está envolvida numa viagem sem rumo. É por isso que tem de estabelecer continuamente novos alvos para não se desesperar. A célula cancerosa não pode simplesmente segurar uma vela para iluminar a cegueira e a miopia da humanidade contemporânea. Em virtude de visarmos apenas a expansão econômica, nós usamos o meio ambiente como fonte alimentar e anfitrião e, atualmente, constatamos surpresos que a morte desse hospedeiro implica a nossa própria morte. As pessoas contemplam o mundo como um grande celeiro: as plantas, os animais, as matérias-primas. Tudo existe unicamente para que as pessoas possam se espalhar de forma indiscriminada e ilimitada sobre a terra.
De onde as pessoas que se comportam dessa maneira tiram a coragem e a ousadia para se queixarem do câncer? Afinal, ele não passa de um espelho que mostra o nosso comportamento, nossos argumentos e, também, o fim do nosso caminho.
Não é preciso vencer o câncer: ele tem de ser compreendido, para que nós também possamos compreender a nós mesmos. Mas as pessoas sempre quebram seus espelhos quando a imagem não os agrada! As pessoas tem câncer porque elas são um cancro para a natureza.
O câncer representa uma grande oportunidade para descobrirmos nossos próprios erros de pensamentos e enganos. Façamos então uma tentativa para localizar os pontos fracos do conceito que usamos para definir o câncer como uma imagem do mundo. Em última análise, o câncer se vê diante da pedra miliária representada pela polaridade “eu ou a sociedade”. Este “ou…ou” é tudo o que ele consegue ver e, assim sendo, resolve buscar a sobrevivência por conta própria, à revelia do seu meio ambiente, e acaba por descobrir tarde demais que de fato depende dele. Na verdade, ele carece de toda percepção da unidade maior, todo-abrangente. Ele considera a unidade somente em termos do seu próprio autodelineamento. Essa incompreensão, ou compreensão equivocada da unidade, é compartilhada por seres humanos e tecido canceroso. Também nós nos dividimos mentalmente, também damos origem à divisão entre o “eu” e o “tu”, sem compreender a futilidade de pensar em termos de “unidades”. A unidade e a unicidade são a essência de tudo o que existe: fora dessa existência não há nada. Dividir a unidade em pedacinhos faz com que obtenhamos a diversidade; esta porém é o que, em última análise, se junta para formar uma unidade.
Quanto mais o ego se subdividir tanto mais perderá o senso da totalidade do qual ainda faz parte. É então que sucumbe à ilusão de que pode agir “sozinho”. Todavia, a palavra sozinho significa um-só e inclui um-só-com-tudo, e não o contrário, ou seja, a separação autêntica do resto do universo. Mais precisamente, o nosso eu apenas pode imaginá-la. Na medida em que o eu se fecha, o homem perde a sua ligação ancestral com a origem do seu ser. O ego tenta satisfazer suas necessidades e dita o rumo. Tudo isso é conveniente e certo para o eu, no que se refere a uma progressiva separação, a uma crescente diferenciação, visto que através da acentuação de cada limite ele se sente melhor. O ego só tem medo de tornar-se uno, pois isto significa a sua morte. O ego defende sua existência com muito alarido, inteligência e bons argumentos, e apresenta as mais sagradas teorias e as mais nobres intenções a seu favor: o principal é que sobreviva.
Enquanto o nosso eu se esforçar para alcançar a vida eterna, ele fracassará tal como a célula cancerosa. A célula cancerosa se diferencia da célula corporal através da supervalorização do seu ego. Na célula, o núcleo da célula corresponde ao seu cérebro. Na célula cancerosa, o núcleo aumenta constantemente de importância e isso amplia seu tamanho (o câncer também é diagnosticado através da modificação morfólogica do centrossoma). A modificação desse núcleo celular corresponde à ênfase dada ao raciocínio mental egocêntrico do qual nossa época está impregnada. A célula cancerosa busca a vida eterna na multiplicação material e na expansão. Tanto a célula como o ser humano não compreendem que buscam algo na matéria, num local onde não existe, mais precisamente, a vida. O homem confunde o conteúdo e a forma e tenta, através da multiplicação da forma, obter o ansiado conteúdo. Mas Jesus já dizia: “Quem quiser obter a vida eterna, tem de perdê-la”.
Todas as escolas iniciáticas ensinam desde épocas remotas o caminho oposto: sacrificar o aspecto formal a fim de obter o conteúdo ou, em outras palavras, o eu tem de morrer para que possamos nascer outra vez no Si-mesmo. Convém notar: este Si-mesmo não é o meu si-mesmo, mas é o Ser. Ele é o ponto central que está em toda parte. O Si-mesmo não tem uma existência especial, visto que abrange tudo o que existe. É aqui que se elimina a questão: “Eu ou os outros?” O Si-mesmo não conhece outros, visto que ele é o Todo-Um. Um objetivo como esse parece perigoso ao ego e muito pouco atraente. Por isso não devemos nos surpreender quando o ego empreende todos os esforços para trocar esse objetivo de unificação por um ego forte, grande, sábio e iluminado. No caminho esotérico, bem como no religioso, a maioria dos visitantes fracassa quando tenta obter a solução dos conflitos ou a iluminação por meio do eu. Muitos poucos entendem o fato de que o eu com o qual se identificam nunca poderá ser salvo ou iluminado.
A grande obra sempre pressupõe o sacrifício do eu, sempre pressupõe a morte do ego. Não podemos salvar o nosso eu, só podemos nos desapegar dele: neste caso, estamos salvos. O medo que mais surge nesse ponto, o de não existir mais, só comprova o quanto nos identificamos com o nosso eu e como sabemos pouco sobre ele. Justamente aí está a oportunidade para solucionar o problema do câncer. Só quando aprendermos a questionar de forma lenta e progressiva a rigidez do nosso eu e os nossos limites, e só quando nos abrirmos é que começaremos a nos sentir como parte do todo e, portanto, começamos a assumir responsabilidade também pelo todo. Nesse caso, também compreenderemos que o bem-estar do todo significa o nosso bem-estar, pois como parte somos simultaneamente unos com o todo. Toda célula contém a mesma informação genética geral do organismo: ela apenas tem de compreender que na verdade ela é o todo! A filosofia hermética nos ensina que o microcosmo é igual ao macrocosmo.
O erro de raciocínio que cometemos está na diferença entre o eu e o tu. Assim surge a ilusão de que como um eu podemos sobreviver muito bem, na medida em que sacrificarmos o tu e o usarmos como solo nutritivo. Na realidade, o destino não permite a separação entre eu e tu, entre parte e todo. A morte provocada pela célula cancerosa do organismo significa também a sua própria morte, assim como, por exemplo, a morte do meio ambiente incluiria a nossa própria morte. Todavia, a célula cancerosa, tal como os homens, acredita num exterior independente dela. Essa crença é mortal. O antídoto para ela chama-se amor. O amor nos torna perfeitos, visto que abre as limitações e permite a entrada do outro para que haja uma união. Quem ama não coloca o próprio eu em primeiro plano, mas vive uma grande totalidade. Quem ama sente o que acontece à pessoa amada como se acontecesse consigo mesmo. Isso não é válido só no âmbito humano. Quem ama um animal não pode considerá-lo do ponto de vista social como um produto nutritivo. Ao mencionar o amor não estamos nos referindo a um pseudo-amor sentimental, mas àquele estado de consciência que de fato capta algo da unidade de tudo o que existe, e não aquele comportamento, bastante frequente, no qual tentamos compensar os sentimentos inconscientes de culpa devidos à agressividade reprimida por meio de “boas-ações” ou de uma devoção exagerada aos animais. O câncer não mostra o amor vivido; o câncer é um amor pervertido!
O amor vence todas as barreiras e limitações.
No amor se unem e se fundem todos os opostos.
Amar é tornar-se uno com o todo; o amor se expande para tudo e não se detém diante de nada.
O amor não teme a morte, pois amar é viver.
Quem não viver este amor na consciência corre o risco de ver seu amor vincular-se à materialidade, tentando nesse âmbito fazer valer as leis que também regem o câncer.
A célula cancerosa vence todas as fronteiras e limites. O câncer elimina a individualidade dos órgãos.
O câncer se estende por tudo e não se detém diante de nada (metástases).
A célula cancerosa não teme a morte.
O câncer é o amor num nivel equivocado. A perfeição e a unidade só podem ser concretizada na consciência, não na matéria, visto que a matéria é a sombra da consciência. No mundo transitório das formas o homem não consegue concretizar aquilo que pertence a um âmbito eterno. Apesar de todo esforço dos reformadores do mundo, nunca haverá um mundo perfeito, sem conflitos e sem problemas sem lutas. Nunca haverá pessoas sadias sem doenças e morte, nunca haverá o amor todo-abrangente, já que o mundo das formas vive das limitações. No entanto, todos os objetivos podem ser concretizados – por cada um e a qualquer tempo – quando a pessoa conseguir enxergar através das formas e tornar-se livre em sua consciência. No mundo polarizado, o amor leva ao apego; na unidade, ele leva ao transbordamento. O câncer é o sintoma do amor mal-compreendido. O câncer só sente respeito pelo amor verdadeiro. E o símbolo do amor perfeito é o coração. O coração é o único órgão que não pode ser atacado pelo câncer.

Extraido do livro «A DOENÇA COMO CAMINHO»
Autores: Thorwald Dethlefsen & Rüdiger Dahlke

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