Acesso à água: lições que vêm do passado

Raquel Rolnik

Viajando pela Índia, pude conhecer um pouco o problema do abastecimento de água em algumas regiões daquele país e como tem sido enfrentado. Na área do Deserto de Thar onde estive, tradicionalmente a população resolvia essa questão por meio da captação da água da chuva. Nas cidades dessa região, a arquitetura residencial – das casas mais simples aos grandes palácios – incorporava o mecanismo de captação das águas da chuva como elemento estrutural. Assim, toda água que caía nas calhas era direcionada para reservatórios, que depois serviam para abastecer as casas.

Além desse sistema, grandes tanques e imensos lagos artificiais – muitos deles construídos por marajás ainda no século XIV – também recolhiam água da chuva para abastecer as cidades. Um exemplo é o Lago Gadisagar, construído em 1367, na cidade de Jaisalmer.

Tanque de captação de água da chuva construído no século XVIII, na cidade de Jodpur. Foto: Raquel Rolnik.

No final da década de 50 do século XX, porém, tem início a construção do Canal do Rajastão – renomeado para Canal Indira Ghandi, em 1985, em homenagem à primeira-ministra assassinada no ano anterior –, que capta águas de rios do Himalaia, cruzando quase 500 km do deserto. Essa foi uma grande obra pública, que teve por principal objetivo propiciar a agricultura irrigada no deserto, mas que também possibilitou a implementação de um sistema de água encanada em várias cidades, inclusive em Jaisalmer.

Obviamente, isso trouxe melhorias, já que antes era necessário carregar cântaros na cabeça para transportar água dos lagos e tanques até as residências. Esse era um trabalho, aliás, realizado principalmente por mulheres.

Porém, ao mesmo tempo em que se canalizava e centralizava o sistema de abastecimento de água, abandonava-se a estrutura de captação de águas da chuva, tanto no modo de construir as casas, como nas formas de reservação públicas – hoje os lagos artificiais servem apenas para visitação e contemplação. Isso ocasionou na atualidade sérios problemas de abastecimento, especialmente para a população mais pobre, que até hoje vive em casas que não contam com água encanada, sendo obrigada a comprá-la de quem tem acesso.

Além disso, o sistema de captação e abastecimento centralizado numa grande obra de infraestrutura gerou um superconsumo de água: de um lado, a agricultura irrigada de plantios que requerem uma grande quantidade de água, como o trigo, acabou por acarretar em desequilíbrios ambientais, incluindo salinização e processos erosivos graves na frágil estrutura geológica do deserto. De outro, a disponibilidade e a facilidade de acesso à água encanada levaram a um aumento substancial dos níveis de consumo residencial. Em anos mais secos, a quantidade reservada no canal é insuficiente para o abastecimento de todos. Como as técnicas tradicionais de reservação foram abandonadas, sobretudo nas cidades, a falta de água no período seco passou a ser um problema cada vez mais grave.

É claro que ninguém quer voltar a carregar água na cabeça. Mas evidentemente é possível estabelecer uma forma de abastecimento descentralizada, que inclua a captação de água de chuva nas residências, além de estruturas de reservação públicas, como foram os tanques e lagos do passado nos reinos do Rajastão.

Ao contar essa história, pensei nos dilemas atuais que vivemos em relação à água no Brasil… e temo que, embora tenhamos formas cada vez mais sofisticadas de reservação, tratamento e distribuição de água, algumas lições do passado, inscritas em formas de construir e distribuir este importante recurso, poderiam ser úteis para enfrentar a questão…

*Publicado originalmente no portal Yahoo!.

Source: Acesso à água: lições que vêm do passado

Salvar

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s