Boaventura propõe uma rebeldia compentente

Um otimista trágico, que procura ser um rebelde competente.
Boaventura
Foto: Boaventura de Sousa Santos

Editei a primeira resposta de uma longa entrevista com Boaventura de Sousa Santos para a revista “Análise Social” intitulada “O Intelectual de Retaguarda”  com o intuito de apresentar uma ideia provocadora dele: a da rebeldia competente (para quem quiser ler toda entrevista segue o link no final desta postagem).

Eduardo Sejanes Cezimbra

Boaventura de Sousa Santos : “(…) Entre a razão e a vontade há mais pontes do que as que podemos imaginar. A minha identidade como cientista social, como sociólogo, assenta em dois pilares. Por um lado, a consciência informada dos problemas que afligem as sociedades contemporâneas (e a nossa em particular) e da dificuldade em pensá-los e resolvê-los para além dos limites impostos pelo pensamento único, cuja hegemonia é hoje mais asfixiante do que nunca. O caráter informado desta consciência reside no exercício de uma sociologia crítica, analiticamente consistente. Por outro lado, a crença igualmente informada de que há, pelo menos potencialmente, alternativas, já que as sociedades não podem prescindir da capacidade de pensar em alternativas. Isto é particularmente válido nas sociedades capitalistas onde a desigualdade social, a injustiça e a discriminação colidem com os valores da igualdade, liberdade e fraternidade que informam a modernidade ocidental, e não podem, por isso, deixar de suscitar resistências.

O caráter informado desta crença decorre da leitura da história e do meu trabalho de investigação-ação com os movimentos sociais.

Mas não nego que é uma crença. O grande filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que na ciência há algo de crença e que era mais prudente reconhecê-lo do que desconhecê-lo. O meu otimismo trágico resulta pois desta dupla ideia de que são enormes as dificuldades em imaginar e mais ainda em construir uma sociedade mais justa e equilibrada, não só nas relações entre humanos, mas também nas relações entre estes e a natureza, e de que, por outro lado, essas dificuldades não são tão inelutáveis que eliminem de todo a possibilidade das alternativas.

Quanto à rebeldia competente, acho que tem igualmente duas dimensões.

A primeira é que, com a crescente mercantilização da educação universitária e a consequente obsessão com a eficiência e as necessidades do mercado, as nossas universidades, estão hoje, mais do que nunca, a formar conformistas. E conformistas incompetentes, pois que os estudantes, quando formados, encontram uma sociedade que em vez de os acolher, os rejeita, porque afinal o mercado já lá não está ou nunca lá esteve. Os indignados e a geração à rasca são a prova disto mesmo.

A segunda ideia é que a alternativa é a formação de rebeldes competentes. Rebeldes, porque a sociedade tal qual está exige inconformismo e vontade de lutar por uma sociedade melhor.

Mas rebeldes competentes, porque ao longo do século ficou claro que os rebeldes foram ainda mais incompetentes que os conformistas. E aqui há obviamente uma crítica às tradições eurocêntricas, tanto da teoria crítica, como da esquerda. Daí também o falar de rebeldia em vez de revolução.

As lições do século não sendo inequívocas, são bastante preocupantes. Por um lado, a revolução revelou um impulso incontrolável para se institucionalizar. Nas revoluções modernas, as primeiras medidas dos revolucionários visaram quase sempre impedir que houvesse mais revoluções. Foi tão fácil transformar antigos inimigos em amigos quanto antigos amigos em inimigos. Com isso fecharam-se muitas portas de transformação social progressista.

A rebeldia preocupa-se em manter as portas abertas. Por outro lado, a revolução visou construir uma sociedade totalmente distinta daquela em que nós vivemos, os amanhãs que cantam, e os resultados são conhecidos. O rebelde dos nossos dias sabe que a esmagadora maioria da população do mundo tem carências que não lhe permite esperar por futuros longínquos. Muitos deles e delas estão vivos hoje mas não sabem se estarão amanhã, têm comida hoje mas não sabem se terão amanhã, estão sãos hoje mas podem morrer amanhã de uma doença curável, estão hoje nas suas terras mas podem amanhã ser expulsos por uma empresa mineira.

Nestas condições, as mudanças urgentes não parecem menos importantes que as mudanças civilizacionais. Daí a necessidade de abandonar a ideia de uma sociedade totalmente distinta e lutar aqui e agora por uma sociedade com mais dignidade, com mais justiça, com mais solidariedade, não só com os outros, como com a própria natureza.

Não Alternativa, mas sim alternativas. As possibilidades não serão radicais, mas há que radicalizar as que realmente existem.

O rebelde competente é um rebelde autorreflexivo que procura aprender com os erros do passado, submetendo-os a um escrutínio rigoroso sem as fachadas autoritárias da autocrítica nem o masoquismo rendido da má consciência.”

O intelectual de retaguarda, por Helena Mateus Jerónimo e José Neves – Entrevista para Análise Social, 204, xlvii (3.º), 2012.

Fonte: Boaventura de Sousa Santos

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