Entre o Arado Velho e o Rolo Compressor

Que o espaço se torne, cada vez mais, o espaço de todos os homens. E não o espaço do capital, que oprime e explora. (Milton Santos)

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Eduardo Sejanes Cezimbra

Arado Velho, o nome poético já diz muito do lugar paradisíaco situado no Bairro Belém Novo, extremo sul de Porto Alegre, já em sua área rural.

Campos alagadiços propícios para a cultura do arroz orgânico, gado pastando ao redor dos canais e cavalos sendo montados por seus donos, tudo isso na beira do Guaíba, com barcos de pescadores disputando espaço com veleiros. Lindo!, dirão membros das redes sociais, ainda mais se virem os bandos de capivaras, biguás, tartarugas e até jacarés que enchem de vida as águas e praias da Ponta do Arado.

Pois este cenário bucólico, um santuário da natureza intocada, está ameaçado por um ‘rolo compressor’ chamado especulação imobiliária aliado ao poder econômico que dita as regras políticas, no momento, como pode constar quem anda pela congestionada Zona Sul de Porto Alegre invadida por loteamentos fechados por todo canto.

Não bastasse tudo isso ainda querem fechar a Ponta do Arado para o público. Atualmente, o acesso já é restrito pelos compradores da área e tende a se agravar se liberada a construção de condomínios de luxo no entorno do Arado Velho.

arado

Sem pejo, na ‘mão grande, roubaram 100 ha da já restrita ‘Zona Rural’ de Porto Alegre, em processo de regularização na Câmara de Vereadores.

Para os moradores do Bairro Belém Novo que já foram seduzidos pelo canto da sereia do loteamento Terraville, este novo empreendimento não está cheirando bem, pois não esquecem das muitas contrapartidas descumpridas pela empresa.

Não houve nenhum sinal do propalado ‘progresso’ trazido pelo rolo compressor da especulação imobiliária no bairro, a não ser para acabar com banhados e campos da região, embora muitos ainda chamem essa devastação ambiental de ‘progresso’.

Diante da realidade implacável do rolo compressor especulativo, a sociedade busca apoio da legislação ambiental pois conforme explica o ambientalista Felipe Viana: “Essa área, pelo atual Plano Diretor, é parcialmente gravada como de produção primária e a parte dos morros e banhados como de Proteção ao Ambiente Natural. Quando mapeada no PDDUA foi identificada como uma propriedade com caracteristicas rurais!”

A constituição de um parque natural na Ponta do Arado, portanto, é a única medida realmente compensatória diante do impacto ambiental da proporção que se planeja para Belém Novo e toda a Zona Rural de Porto Alegre.

Há possibilidade de reduzir a área do ‘empreendimento’ já que este adentra em área caracteristicamente rural onde havia plantações de arroz, uma zona de exclusão ou amortecimento da devastação.

A Ponta do Arado Velho é uma área cobiçada pelo rolo compressor imobiliário, mas pode resistir à sua passagem se a comunidade mobilizar suas energias para proteger essa reserva natural próxima do Centro de Porto Alegre.

Já aconteceu uma Audiência Pública, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, dia 11/08, às 10 h, com a seguinte convocatória feita pelos ambientalistas e moradores de Belém Novo:

“Convidamos a todos interessados na manutenção e restabelecimento da Zona Rural de Porto Alegre para debater a proposta de alteração dos limites urbanísticos desses 400 hectares que fazem parte do histórico do bairro Belém Novo e resguardam mais de 200 hectares de áreas alagadiças e de morros a beira da orla do Guaiba.

Essa área, pelo atual Plano Diretor, é parcialmente gravada como de produção primária e a parte dos morros e banhados como de Proteção ao Ambiente Natural. Quando mapeada no PDDUA foi identificada como uma propriedade com caracteristicas rurais !

A proposta do empreendedor é de suprimir a parte de produção primária e por consequência a retira cerca de 100 hectares propícios a produção de arroz orgãnico dos limites da “nova zona rural” do munícipio, agora no final da discussão sobre o assunto. Estamos falando em potencial produtivo de cerca 480 toneladas de arroz orgânico por ano que poderiam abastecer a merenda escolar das escolas públicas.

Estão propondo o aumento do número de casas, passando de 1200para mais de 2000 casas. Pra isso serão necessários cerca de 1 milhão de m3 de aterro em áreas com cota baixas de até 50 cm acima do Guaiba e pra viabilizar as moradias serão necessários elevar a cota 4.3 metros.

Venha debater os impactos do empreendimento sobre o escoamento das águas do bairro, o trânsito local com 1500 carros a mais viajando até o centro nos horários de pico etc.”

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