O dilema entre o bem viver e o PIB

A busca de saídas para a crise civilizatória e ambiental causada pela “falsa religião do progresso”

 

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José “Pepe” Mujica em sua chácara próxima a Montevidéu, Uruguai.

Eduardo Sejanes Cezimbra

José Mujica, ex-presidente do Uruguai, atualmente é uma das personalidade políticas mais requisitadas para palestrar e expor seu ideal de uma vida mais simples e feliz. Talvez, porque o que ele diz toque muito o coração e a mente das pessoas cansadas de um modo de vida que as torna extremamente infelizes, endividadas e doentes.

Outro intelectual, o economista francês Serge Latouche nos diz que, na Europa, tanto a direita quanto a esquerda estão funcionando  em um mesmo paradigma, que não nos levará a lugar algum que não seja o abismo.  O que Latouche propõe é uma sacudida no imaginário social a partir da palavra  “decrescimento”, ou seja, temos que deixar de lado esta ficção de um crescimento infinito, canceroso, e dar um descanso ao planeta exaurido. Mas existe um sistema estabelecido, que por isso mesmo é chamado de establishment. E nós observamos que, num momento de crise social, econômica e ambiental, como esta que  estamos vivendo, há a tendência de intensificarmos o que está causando a crise.

Temos que nos dar conta de que isso também passa pela mente e coração das pessoas. Se existe uma publicidade e propaganda que faz com que  busquem o carro e demais símbolos de status e poder, é preciso que exista também  uma consciência de que há outras maneiras de nos realizarmos, como nos lembram Mujica e Latouche . Sem esta consciência, vamos seguir sendo pautados e balizados pelas noções de progresso e desenvolvimento a qualquer custo, pela noção de produto interno bruto (PIB), que ainda rege a mente e as aspirações da população, em termos economicistas apenas.

É a questão economicista, ainda baseada na cultura da escassez e da dependência ao dinheiro que estimula o individualismo e o “salve-se quem puder”.

A tendência ao isolamento vem junto com toda esta busca de consumo, que reforça o individualismo. O indivíduo quer se isolar em sua casa, sem falar com os vizinhos. Ela se fecha em sua unidade familiar e às vezes não consegue nem falar com os filhos e o cônjuge. Cada pessoa de uma mesma família pode até preferir ter uma TV, um aparelho de micro-ondas e um frigobar dentro do quarto e não falar com as outras gerando sofrimento emocional e psíquico diagnosticado como depressão, ansiedade e fobias.

As regiões mais distantes dos grandes centros que ainda não experimentaram este tipo de ´progresso´ o ambicionam muito. Elas almejam estes valores, porque pensam que eles vão lhes trazer um novo status. Por isso, qualquer tentativa de preservar os estilos de vida das comunidades tradicionais é considerada um atraso. O bispo Dom Pedro Casaldáliga, que defende os interesses dos campesinos, é considerado alguém que atrasa o progresso da região de São Félix do Araguaia. Isso é reforçado pelo discurso  político baseado exclusivamente no desenvolvimentismo.

Constatamos assim que os hábitos e atitudes são moldados pelo zeitgeist, o espírito de uma época, e a nossa época é decididamente influenciada pela “falsa religião do progresso”, como diz Konrad Lorenz, levando “a demolição do homem”, a partir da perda de suas características mais humanas, em especial a sua capacidade de auto-sustentabilidade que leva à dependência excessiva de especialistas, seja na saúde, educação, cultura, alimentação, habitação, etc. Isso tudo muito manipulado pelos meios de comunicação de massa.

Como se inserir nesta perspectiva do bem viver? O melhor é que alguém se sinta dentro de uma comunidade, apoiado, protegido, valorizado. Isso é algo que ainda estamos buscando. Para dar e receber este apoio, não precisamos inventar a roda. As comunidades originárias indígenas, quilombolas, populares têm como sua mais preciosa tecnologia a criação de vínculos de identidade e também de interação social. Estas comunidades estão bem além do modelo tradicional de relações familiares burguesas.  Delas surge uma maneira diferente de ser e estar no mundo baseada na solidariedade e no compartilhamento.

E, acredite, este é o fundamento para que qualquer coisa possa acontecer…

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3 comentários sobre “O dilema entre o bem viver e o PIB

  1. A conscientização e reação ao stablishment só vai ocorrer depois que muitas coisas estiverem perdidas, algumas de forma irreversível. A maioria, por comodismo, é individualista e só muda seu comportamento quando a crise bate à sua porta.

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